Os predadores
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de outubro de 1997
José Elias Aiex Neto 
Existe uma interminável discussão a nível mundial a respeito dos efeitos do neoliberalismo. Os defensores de tal doutrina alegam que não existe maneira de promover o desenvolvimento econômico de uma sociedade a não ser através da livre iniciativa e da economia de mercado. A Escola de Chicago, mentora da política econômica que embasa o modelo neoliberal, estabelece como fundamentos da mesma eficácia, a eficiência e o lucro. Resumindo, o que se prega é que todos nós temos que ser cada vez mais eficazes e eficientes para termos cada vez mais lucros, ou seja, dinheiro. Isso se chama competição.
O que os defensores do modelo neoliberal não dizem é que a competição provoca, naturalmente, alguns efeitos, os quais estão evidentes nos dias de hoje. O primeiro deles é a existência de vencedores e perdedores (essa é a essência da competição). No caso das sociedades, se o objeto da competição é o dinheiro, é natural que os vencedores tenham muito e os perdedores não tenham nada. É por isso que temos hoje o absurdo dos 358 homens mais ricos do mundo terem juntos mais dinheiro do que 45% da população mundial mais pobre (2 bilhões e 600 milhões de pessoas juntas). Ou então termos no Brasil a pior distribuição de renda do mundo, com pessoas como o sr. Antonio Ermirio de Moraes com 5 bilhões e 800 milhões de dólares enquanto 59% da nossa população é considerada excluída.
O processo de afunilamento da riqueza é cada vez mais evidente, pois os ricos estão cada vez mais ricos e cada vez mais poderosos para continuarem a ser os vencedores dessa competição. A nossa pirâmide social a cada dia aumenta a sua base, onde estão os excluídos. A classe média tenta se segurar no meio da pirâmide, porém sua tendência majoritária é descer e se juntar aos que estão na base da mesma.
O segundo fenômeno que ocorre nas competições é a mudança do estado emocional das pessoas. Em qualquer competição a tendência é que os participantes fiquem estressados. O estresse crônico leva à depressão, entre tantas outras doenças. Seguramente, o aumento do número de estressados e deprimidos que ocorre no mundo todo hoje está ligado a esses fatores.
A perspectiva da globalização, da qual o Brasil estará participando em condições desiguais em relação aos grandes países do mundo, nos faz pensar que, se hoje a maioria do povo brasileiro é perdedor, amanhã, com a globalização nos levando a competir com pesos pesados como EUA, Japão, Europa etc, a tendência é que todos nós sejamos perdedores. A existência de um capital especulativo calculado em trilhões de dólares pairando sobre o mundo em busca de idiotas que aceitem pagar taxa de juros mais alta nos faz tremer de horror ao pensarmos no que pode acontecer com o Terceiro Mundo: um verdadeiro genocídio. O mundo todo hoje sabe que a tendência é que 300 megaempresas vão dominar o mundo. Elas irão continuar competindo para ver quem é a mais forte. Para elas não interessa os mais fracos, os perdedores como eu e você. Para nós o que resta é muito álcool, calmante e antidepressivo, senão o aniquilamento. Será que dá para continuar aceitando isso de braços cruzados?


