Os praticantes do surfe na maionese - José Fernando da Silva
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de fevereiro de 1999
José Fernando da Silva 
Mais tontos do que cachorro caído de caminhão de mudança. Assim podem ser caracterizados o presidente Fernando Henrique e sua equipe econômica. Com a economia aos muafos, o País ainda se recupera dos efeitos do mergulho na festa de Momo. Todos acordaram nesta Quarta-Feira de Cinzas com cabeças e pés inchados, na espera de uma reação, mínima que fosse, dos nossos títeres do Fundo Monetário Internacional (FMI). Esperava-se que os economistas do Planalto saíssem da habitual letargia e que pelo menos lançassem uma tábua sobre o precipício, mas nada aconteceu. O presidente reserva para si um silêncio obsequioso, como um monge que se isolou no monte para pensar sobre os grandes problemas da vida e lá encontrou um pé de capim. Depois de muito divagar - e devagar - ele chegou à conclusão de que o grande problema da humanidade era o próprio capim e que o mato poderia ser solidário e não tomar o monte todo.
Ainda durante a campanha eleitoral do ano passado, quando os Tigres Asiáticos já estavam atirados à crise e tudo indicava que o Brasil seria a bola da vez, o nosso monástico presidente cunhou uma das maiores pérolas da economia que se tem notícia. Acreditando no bom espírito do G-7 (os sete países mais ricos do mundo) e na caridade do FMI, Fernando Henrique afirmou que os grandes capitalistas poderiam praticar a globalização solidária. Só uma alma acostumada a dar conselhos a Deus para falar tamanha asneira. Ora, a globalização econômica não passa da faceta mais dura do capitalismo, pedir a um banqueiro ou grande industrial para perder dinheiro, já é mais do que loucura, é devaneio de um cérebro desidratado.
As dívidas interna e externa estão aí esperando para ser pagas. São números cavalares da ordem de centenas de bilhões de dólares. Mas com o silêncio do governo, qualquer luz que se faça no final do poço não passa de miragem. Com os juros arranhando a estratosfera, a tendência é se transformar o que já é impagável num calote monumental. Não resta ao governo outra solução do que um pacote. Provavelmente a equipe econômica não dê esse nome feio para o conjunto de medidas meia-sola que será colado ao moribundo Real. Nossa língua é rica em expressões, Malan & Cia são craques em inventar novos termos para descrever o lugar-comum, a mesmice abstrata dos números sempre desfavoráveis ao povo, mas que enchem de cobiça os agiotas que nos batem à porta.
No campo político temos este jogo de cena entre os Estados e a União. Todos os governadores sabem que o futuro presidente vai sair do meio deles, de algum Estado federado - ou ferrado, como queiram! E o que começou como uma reação à ganância dos cofres de Brasília está se tornando um grande teatro de tragédias e comédias para ver quem se sai líder dentre os líderes capengas. Mas é bom não se empolgar, caro eleitor, poucos dos que estão aí podem realmente significar uma ruptura do modelo prescrito pelo FMI e G-7 para o Brasil. Itamar Franco (PMDB) é vacilante. Garotinho (PDT) - bem, o nome já diz. Zeca do PT e Olívio Dutra estão com o discurso para lá de soft.
Agora vem o Ciro Gomes (PPS), candidato derrotado à presidência da República, contumaz praticante do surfe na maionese, propor a criação de um novo partido de centro-esquerda, a fim de acomodar as forças progressistas perdidas em outras legendas. Sem mais comentários! Melhor é lembrar Virgílio e pensar que é difícil deixar de rir diante de tal espetáculo.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina


