Os porquinhos foram estudar e viraram feijoada - Paulo Maffei
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segunda-feira, 03 de agosto de 1998
Paulo Maffei 
O cenário, um programa de entrevistas na TV. A entrevistada era uma headhunter que discorria com fluência, quase num monólogo, sobre as qualidades e virtudes que o executivo dever ter: título de Master Business Administration (MBA), falar fluentemente três idiomas, ler todos os principais jornais do dia, ser jovem, ter experiência, fazer cursos à noite e, é claro, praticar esportes.
Numa das raras oportunidades em que a entrevistada lhe deu chance, a âncora do programa questionou: Caramba! Este perfil que você traçou é do Superman!
A headhunter percebeu, com a interferência, que a realidade da vida, pelo menos para os mortais, não é exatamente como se definem, na teoria, os critérios da chamada empregabilidade. Tentando recompor-se, ela retoma o seu discurso, justificando: Deve-se sempre procurar o melhor.
De fato, é fundamental não apenas no recrutamento de recursos humanos, mas em todas as atividades da vida, buscar o melhor. No caso do executivo, contudo, o conceito de melhor é que precisa ser entendido com mais clareza, objetivando o realismo. Quem já passou pela experiência de montar uma equipe gerencial para impulsionar um processo de turn around sabe que a realidade é sensivelmente diferente da traçada pelo headhunter.
Muitos são os currículos bonitos, cheirosos até, que aparecem nesses processos. Aí, começa a entrevista do candidato e se passa da retórica curricular à prática empresarial. Que desastre... Poucos MBA conseguem responder como agiriam de forma competente para solucionar questões banais do dia-a-dia da vida de uma empresa. Posturas imaturas, muita teoria, visão estratégica curta e incapacidade de enxergar problemas com grandes oportunidades colocam o currículo no arquivo do RH.
Não se trata, absolutamente, de minimizar a importância da formação universitária, dos títulos acadêmicos, da fluência em idiomas, da qualidade do currículo. Tudo isso é muito importante. Mas há um fator chamado bom senso, que deve delimitar com clareza o limite da teoria e da prática. É preciso saber decodificar a teoria para se inspirar uma equipe, comprometê-la e motivá-la para o trabalho. É necessário transformar presentations managements em result manangers. Sim, pois às vezes se assiste a apresentações até emocionantes, mas, quando a equipe volta para a sala, fica uma pergunta no ar: O que é que temos de fazer mesmo?
O lobo mau da competitividade existe e assopra as casas das empresas e dos profissionais todos os dias. Por isso, não adianta aos porquinhos apenas frequentar a universidade. Eles precisam ter competência para encontrar soluções e apresentar resultados. Caso contrário, correm sério risco de virar feijoada. Sem a formação básica, a performance do executivo pode ficar difícil. Mas limitar a contratação de excelentes profissionais ao hermético conceito de empregabilidade que alguns tentam impor é um ato preconceituoso, politicamente incorreto, improdutivo e ridículo.
Inteligência emocional, capital social, bom senso, capacidade de análise, visão do todo sob diferentes ângulos, caráter e sensibilidade com executivos de grife. As empresas, independentemente dos discursos do headhunter, devem exigir o certificado de garantia (experiência!), pois não terão o seu dinheiro de volta.
- PAULO MAFFEI é administrador de empresas pós-graduado em Marketing em São Paulo


