Os políticos vítimas de perseguição
Não demora os políticos poderão autoproclamar-se santos homens e qualificar de herejes aqueles que os contrariam e ousem criticá-los. A frase ''intriga da oposição'' é antiga e foi uma expressão de defesa daqueles que eram surpreendidos e denunciados por desmandos. Hoje, políticos pegos com a mão na botija (entenda-se as muitas formas de irregularidades) se declaram perseguidos ou vítimas de complô. Nesta semana foi Paulo Maluf quem se revelou um sofredor de perseguição. Logo ao assumir o cargo na Câmara Federal (e soube-se disso agora) ele apresentou projeto de lei estabelecendo condenação para o autor de ''crime de perseguição política''.
Mas não são apenas parlamentares federais que têm se queixado e sim também deputados estaduais, vereadores, governadores, prefeitos, ministros e, certamente, também presidentes da República. São muitos os homens públicos que se declaram perseguidos. E quem os ''persegue'' são aqueles que denunciam alguma forma de corrupção que essas ''pobres vítimas'' praticam. Sob esse aspecto, eles de fato são perseguidos. Os parlamentares certamente desejariam, como desejou o velho político paulista - que chegou a conhecer, embora por pouco tempo, a aridez da prisão -, criar leis que punissem os críticos e esses inconvenientes perseguidores. Os homens públicos têm um pouco de tirania e só não a manifestam porque impossibilitados pelo regime democrático.
Quem também se disse vítima de complô foi o vereador Orlando Bonilha, de Londrina, ao ser condenado pela Justiça por crime eleitoral. Se o magistrado chegou à conclusão da sentença dada, deve estar estribado em argumentos fundamentados, mas o vereador - que já foi presidente da Câmara - revidou que tudo isto ''é resultado de perseguição'', perpetrada segundo ele por um grupo de políticos que não quer vê-lo concorrer ao cargo de prefeito no ano que vem. Crime eleitoral, do tipo compra de votos e não-declaração correta de verbas de campanha, são frequentes, mas os acusados e condenados não os admitem - e seria decente que o fizessem, inclusive pedindo desculpas ao povo.
Ao invés da ética - que é pouco compatível com os políticos brasileiros - eles preferem a evasiva da vitimologia, mas os cidadãos obviamente acham isso ridículo. Adversidades no âmbito da arena partidária e dos governos são coisas inerentes, mas os bons políticos e governantes - embora às vezes sabotados e torpedeados pelos contrários - raramente são ''perseguidos'' ou caem nas malhas da Justiça.





