Os planos e o povo - Gil César Dantas Bruel
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de fevereiro de 1999
Gil César Dantas Bruel 
Há mais de uma década o povo brasileiro vem sendo infernizado pelos mesmos tecnocratas que teimam em comandar a política econômica do País, à procura de uma fórmula mágica. Pela terceira vez, enganaram a todos, desta feita durante quatro anos, acenando com uma ilusória estabilidade.
Para conseguir manter apenas temporariamente essa falsa meta, endividaram o Brasil, elevando a dívida pública federal para R$ 319,927 bilhões, dos quais R$ 67 bilhões indexados ao câmbio. Na hora da verdade, como ratos assustados, largaram o barco ao sabor das ondas, pouco se importando com os passageiros. Como desculpa para a derrocada, disseram que nossas reservas teriam atingido o limite crítico de R$ 32 bilhões.
Para conservar em caixa esses R$ 32 bilhões, de uma hora para outra, desvalorizaram o real em mais de 50% frente ao dólar. Ainda que se aceite a alegação de que apenas R$ 67 bilhões seriam representados pela moeda americana, teriam elevado, por si ou a mando do FMI, nossa dívida, num só dia, num valor quase equivalente aos US$ 32 bilhões que queriam conservar como reserva.
Mas, qualquer leigo em economia sabe que para possibilitar uma fuga de capital estrangeiro em mais de R$ 40 bilhões em tão pouco tempo, o dinheiro que entrou não foi para melhorar a estrutura do País e sua produção, mas veio exclusivamente para uma perniciosa especulação, interesseiramente permitida.
Ao nos conduzirem até essa drástica medida, nossos algozes, como costumam fazer, não se importaram com os reflexos dessa nova desastrada experiência econômica junto à população brasileira.
Se o salário mínimo, que havia ultrapassado os US$ 100, chegou a cair para míseros US$ 63, e dificilmente irá superar US$ 80, tornando-se insuficiente até mesmo para a compra da cesta básica, parece não ser fruto do problema criado por eles.
Utopicamente, dizem que a inflação deste ano ficará próxima de 7%, quando todos sabemos que esse índice deverá ser superado antes da fixação do novo salário e que os dois dígitos exigidos pelo FMI possivelmente serão ultrapassados até o final do ano.
Viciados na manipulação de índices, estão desacostumados a dizer a verdade, tanto assim que no dia 15 de janeiro, data da megadesvalorização do real, chegaram a emitir nota oficial divulgada nesse mesmo dia, assegurando que a flutuação do câmbio não seria adotada...
Vindo o desastre, como Pilatos, simplesmente lavam as mãos. Enquanto apocalipses acontecem, os gênios da economia revezam seus assessoramentos simultâneos ao governo e a poderosas entidades financeiras, fazendo com que grande parte desse grupo se apresente podre e rica (aqui não houve falha de grafia).
Falam em bilhões de dólares como se estivessem lidando com tostões, diante de uma população atônita e de uma oposição inerte. A ressaca do Carnaval vai ser terrível, possivelmente a pior do milênio, pois somente dentro de alguns dias os brasileiros vão se dar conta da pobreza que lhes foi imposta por essa gente medíocre, ambiciosa, prepotente, enganadora e orgulhosa.
Se os engenheiros falharem na construção de uma obra, os médicos no atendimento de seus pacientes, os motoristas na condução de seu veículo, poderão ser responsabilizados civilmente.
Mas, por essa sucessão de experiências fracassadas, na forma de miraculosos planos econômicos mantidos à custa do sacrifício do povo e da Nação, até ficarem insustentáveis e desmoronarem como um terremoto, causando prejuízos e vitimando a todos, com raras e duvidosas exceções, alguém será responsabilizado? Quando e como?
- GIL CÉSAR DANTAS BRUEL é advogado e juiz aposentado em Curitiba


