A tolerância, o respeito pela opinião alheia, a lealdade e o princípio in dubio pro reo se configuram, de certa forma, como os pilares de uma sociedade de Estado de direito, pacificada e pacificadora. A democracia – a pior forma de governo com exceção de todas as demais, como dizia W. Churchill – se alimenta exatamente destas prerrogativas, que acabam por se tornar num verdadeiro ethos. As grandes tragédias históricas conhecem muito bem o contrário delas! Quando o homem vê no outro um inimigo a eliminar e se sente ameaçado pela simples existência de visões de mundo diferentes da sua, a sociedade começa a ruir e descemos vertiginosamente os degraus da civilização. Não temos como conviver harmoniosamente sem que reconheçamos no outro um irmão.

É neste contexto que vejo os atuais ataques, alguns virulentos, contra a instituição à qual pertenço como ministro ordenado. Entendo que a maioria deles se dá por um desconhecimento da missão da mesma. Tentativas de reduzir a sua atuação à sacristia e ao altar não encontram na história e muito menos na Bíblia qualquer guarida. Várias vezes em Londrina ela saiu desses ambientes e esteve na rua, com os que agora a criticam. Ela não mudou de lado. A Igreja Católica não é contra as reformas do Estado brasileiro. Há muito que ela conclama a que sejam realizadas. São profundamente necessárias. No entanto, cumpre à mesma Igreja o papel de estar alerta e defender os direitos dos mais fracos. Não o faz em nome de nenhuma ideologia, como a acusam os incautos ou os imbuídos de estranhas motivações. Não há e nem pode haver ideologização da pobreza, como bem nos alerta o papa Francisco. Falamos em nome dos pobres, porque talvez melhor do que ninguém os conhecemos e os amamos e principalmente porque esse é um mandato do próprio Fundador.

Tal como afirmou o Papa Bento XVI em Aparecida, a opção pelos pobres “radica na fé cristológica”. O Papa João XXII, consciente da “irrupção do Terceiro Mundo”, tal como o mostram as Encíclicas Mater et Magistra (1961) e Pacem in Terris (1963), ao convocar o Vaticano II, sonhou com “uma Igreja pobre e para os pobres, para que seja a Igreja de todos”. Terminado o Concílio, o Papa Paulo VI, assumindo a perspectiva dos pobres do “Terceiro Mundo”, publicou a Populorum Progressio (1967), que iria ter influência decisiva sobre a Conferência de Medellín (1968) e a explicitação da opção preferencial pelos pobres na vida cristã.

Não é nenhuma opção excludente! A Igreja não precisa ser contra ninguém para defender os mais vulneráveis. Se algum partido ou ideologia tem discurso semelhante ao nosso, não fomos nós que copiamos deles! Há 2 mil anos que nosso discurso é este! Se não compreendemos a opção pelos pobres feita por Jesus, muito menos vamos compreender o sentido e o alcance da mesma opção, feita por cristãos engajados na construção de uma sociedade onde caibam todos.

O papa Francisco nos disse: os pobres são a carne de Cristo; um Jesus Cristo pobre, que fez opção pelos pobres e assumiu a defesa deles como causa mesma de Deus. Em seu modo de ser e em seus pronunciamentos, a opção pelos pobres é uma questão central. Ele expressou seu desejo incômodo: “Como eu gostaria de uma Igreja pobre, para os pobres!”. E começou por ele mesmo: pagando suas contas no dia seguinte à sua eleição, simplificando seus trajes, trocando o “trono” por uma cadeira e utilizando carro modesto.

O arcebispo de Londrina, ou quem quer que tenha este discurso, não é comunista! E muito menos inimigo do Brasil, como se ouve por aí. Não pode ser condenável o homem que cumpre o seu dever. Não pode ser alvo de ataques difusos e odiosos aquele que segue seus princípios e honra a sua vocação. Não poderá jamais ser atacado o que seguindo seu Mestre trilha o caminho do bem.

Londrina não merece esta dialética. Fazer jus aos seus 85 é erradicar definitivamente “esta tresloucada caça às bruxas” que tende a rasgar ainda mais o nosso tecido social. Pessoas de bem não caem nesta, de julgar e condenar sem conhecer.

MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina

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