Os perigosos senhores X
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de maio de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Assisti há pouco tempo a um excelente filme: As bruxas de Salem. Na estória salienta-se o clima de delação, o fanatismo implacável e a decorrência lógica da conjugação desses dois fatores: a condenação de inocentes enquanto os verdadeiros culpados escapam espetacularmente. Há todo um envolvimento inquisitorial no enredo, que transforma qualquer palavra ou ato em blasfêmia e pecado, equivalentes a crimes de insubmissão que devem ser punidos com a pena capital, ou seja, a forca. Mas em meio à sordidez produzida pela ignorância, à má fé e à presunção de juízes do tipo fundamentalista, um personagem resgata a dignidade do Homem e prefere a morte injusta a denegrir seu nome e sua honra com uma mentirosa retratação que lhe possibilitaria um castigo menor. Especialmente nesse ponto o filme difere essencialmente do cinema ou das novelas brasileiras, onde só se sobressaem como heróis e heroínas tremendos maus-caracteres.
A delação que o filme ilustra tão bem traz ainda duas consequências terríveis: o falso julgamento baseado em mesquinhas vinganças pessoais e a invasão da privacidade que torna a todos vulneráveis, amedrontados e submetidos à escravidão de um poder total. Estas características, diga-se de passagem, estiveram, por exemplo, presentes na Inquisição, assim como nos sistemas totalitários havidos nesse século tais como o nazismo, o fascismo e o comunismo.
É claro que a intriga, a injustiça, o autoritarismo sempre existiram na evolução do homem, e isso, provavelmente, desde que nos pusemos de pé, desenvolvemos o uso das mãos e começamos a utilizar o livre arbítrio, nos diferenciando desse modo dos outros animais. Mas também é certo que o clima de caça às bruxas costuma se acentuar em determinadas épocas, enquanto que em outras salienta-se a relativa liberdade que floresce em ambientes mais democráticos.
Curiosamente, na atualidade vivemos uma fase em que se mesclam a liberalização dos costumes com a libertinagem, e a opressão dos meios de comunicação ou equipamentos eletrônicos empregados como forma de coação e controle. Exemplo disso são as câmaras de vídeo utilizadas por amadores sempre em busca de flagrantes extraordinários da natureza ou da intimidade alheia. Estes especialistas de bisbilhotagem recolhem dinheiro das televisões a troco de qualquer espécie de sensacionalismo ou escândalo, e constituem uma das divisões do trabalho na classe dos senhores X que pululam nas sociedades modernas. Na impunidade que seu anonimato lhes concede, eles se divertem com a dor e as fraquezas de seus semelhantes, tornadas em fontes rendosas para quem se compraz em ganhar uns trocados sem ter que se incomodar em assumir suas ações.
No Brasil já existem muitos senhores X da espécie intrusos das câmaras e vídeos, que cada vez mais baratas e menores vão ficando mais acessíveis à massa. Ao mesmo tempo, parece que estamos ingressando numa daquelas fases de cunho inquisitorial, onde a violação da intimidade se processa, inclusive, através de gravação de fitas feitas às escondidas e de grampeamento de telefones. Esses meios, normalmente utilizados em determinadas épocas por aparatos estatais, agora se privatizaram, tornando-se uma espécie de arma mortal nas mãos de certos grupos, cujos objetivos variam da simples pretensão de entreter o público aos inconfessáveis e ardentes desejos de poder.
Nesse sentido, começamos a assistir a uma série de denúncias televisivas. A princípio, parecem se caracterizar por uma cruzada moral. Clama-se por justiça pelos espancados por policiais. Depois são as falcatruas asquerosas do futebol que vêm a público na tela da TV através de fitas gravadas de conversas telefônicas. Mas se o suborno e a corrupção, velhos companheiros da sociedade brasileira, entretiveram o grande público, terá sido correta a gravação telefônica? Afinal, houve violação da lei que proíbe este ato. Contudo, certos deputados que se supõe jamais tolerariam o SNI, na sua ânsia de conseguir notoriedade se assanharam em julgar o escândalo do futebol, esquecendo-se do escândalo do bingo e de outros piores de alguns dos seus pares que no Congresso, como sempre, acabaram em pizza.
Logo em seguida, a Folha de S. Paulo acusou em grandes manchetes o ministro Sérgio Motta. Ele teria subornado deputados para votar na reeleição. Na matéria, tudo é evasivo. Fica na base do eu acho e do sei lá, das gravações feitas às escondidas por um tal senhor X. E, em que pese o teor enojante das conversas dos deputados, a acusação de um possível envolvimento do ministro feita de forma leviana, porquanto sem provas, leva a pensar se não existe por parte de perdedores de eleições passadas uma tremenda vontade de ressuscitar o clima de desmoralização que no governo anterior levou ao impeachmet.
Diante desses fatos deve-se concluir que a utilização de meios nazi-fascistas por parte de pessoas ou instituições, mesmo que sejam para destruir o que se considera imoral ou nefasto, é algo perigoso que não pode ser tolerado. Deixemos a terrível estória da bruxa enterrada no passado.


