Enquanto os filhos da classe média consomem parte da infância em cursos de natação, inglês, ballet, judô, e passam horas diante da TV e do computador, crianças e adolescentes que moram na periferia queimam calorias brincando na rua, subindo e descendo de árvores, e exercitam a imaginação em atividades que criam a cada dia. Os meninos Sidnei Fernandes Rodrigues, 9 anos, Jean Felipe Cesário Piedade e Tiago Santos Afonso, ambos de 10 anos, se divertem todas as tardes e seguem, até o começo da noite, brincando na rua onde moram, a Brasilino Pereira do Nascimento, no Conjunto Luis de Sá, zona norte de Londrina.
Eles vão para a escola pela manhã e têm as tardes livres só para o que mais gostam de fazer: brincar. Bola, esconde-esconde, pique latinha, pega-pega, cada macaco no seu galho, são brincadeiras que eles adoram. ''Mas a gente é viciado em soltar pipa'', revela Jean Piedade. Nariz sujo de carvão, Sidnei Rodrigues, o Biequi, desenha a pista de corrida na calçada em frente a casa dele. Num instante já está em cima da árvore para pegar a latinha de alumínio enroscada num galho e que se transforma numa bomba de combustível do autódromo feito de carvão. ''A gente brinca até de noite. Quando vem algum bêbado pedindo comida a gente entra em casa'', conta.
Biequi quer ser policial quando crescer. Imagina poder acabar com a violência que toma conta das ruas do bairro onde mora. ''Já teve um homem morto na esquina da padaria e outro dia a polícia prendeu um ladrão na rua de baixo'', relata Jean, assustado com as ocorrências policiais. O menino expõe sua insegurança. ''Tenho medo que algum ladrão entre em casa e assuste minha mãe que está grávida e ela perca o nenê'', comenta Leandro.
Duas garrafas descartáveis de refrigerante e uma bola garantem a diversão
das crianças que tomam conta da Rua José Fernandes Guerreira, no Conjunto Maria Cecília, zona norte. As crianças fazem da rua, pouco movimentada, o palco para as brincadeiras sem limite de idade. A mais velha, Daiane Cristina André, 14 anos, se diverte com a bola fazendo embaixadas e revela sua paixão pelo futebol. A adolescente, que já teve namorado no ano passado, conta que brincava de dia de boneca e namorava à noite. ''Brincar é a melhor coisa do mundo. Namorar é bom também'', comenta sorridente. Ela diz que, enquanto não completar 15 anos, vai continuar aproveitando a infância.
Ana Maria da Silva, 11 anos, também não dispensa a brincadeira. Conta que acorda cedo, vai para a escola, limpa a casa (assim como as demais meninas do bairro) e tem a tarde e até a noite para se divertir na rua. ''A gente fica aqui até 10 horas brincando. Não tem problema não'', ela garante. O pai é motorista de ônibus e a mãe, empregada doméstica, acaba de saber que está grávida do terceiro filho. ''Vou ser pediatra'', diz Ana Maria. Ela espera esticar a infância até os 18 anos. Só depois disso ela pretende arrumar um emprego e estudar à noite.
Enquanto os colegas jogam bola, pulam elástico, fazem piruetas, Diogo Matos, 10 anos, cuida da irmãzinha Daniela, de 1 ano e seis meses. ''Ele gosta de cuidar dela, sempre está com ela aqui'', conta Glenda Keila Batista Angelo, 10 anos, que tem como brincadeiras preferidas a bola queimada e a boneca. Diogo diz que cuida da irmã sem problema. ''Ela é boazinha'', comenta, observando os malabarismos de Renan Alves Passos, 10 anos. O menino, que está na 4 série, exibe o resultado das aulas de capoeira. ''Isso que eu fiz chama-se gato'', explica, após executar o salto mortal na calçada.
''Olha o carro molecada'', grita a dona de casa, mãe de uma das crianças que brinca no local. Numa fração de segundo o espaço é aberto para o carro passar. A bola sai de cena. Instantes depois retorna nas mãos da criançada, que faz da rua extensão do quintal de suas casas.

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