Os passos da integração euro-latina-americana - Ruy Martins Altenfelder Silva
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de julho de 1998
Ruy Martins Altenfelder Silva 
O 5º Fórum Euro-Latino-Americano, realizado recentemente em Lisboa, evidenciou que a integração intercontinental encontra-se em processo avançado de negociações. Várias ações encontram-se em curso, embora a total concretização do processo dependa de uma séria de tarefas a serem cumpridas, no sentido de torná-lo um instrumento equânime para o fortalecimento da União Européia e da América Latina no contexto da economia globalizada.
Neste final de século, mais do que o Atlântico, contrastes sócio-econômicos acentuados ainda separam os dois continentes. Reduzir essas disparidades é fundamental para que integração não estabeleça privilégios e vantagens competitivas desiguais em prol dos europeus. Para isso, obviamente, a principal lição de casa cabe aos latino-americanos, numa corrida desenfreada para resgatar importantes etapas de seu desenvolvimento, retardadas ao longo do século por uma série de equívocos históricos.
O primeiro e crucial desafio da América Latina nesse processo é consolidar a sua própria integração, a partir da base do Mercosul, que já é uma realidade inquestionável. E esta integração regional não se fará com planos grandiosos e sim por medidas e projetos realistas. Também não poderá ser concretizada apenas pelos organismos governamentais, mediante tratados e acordos oficiais. É imprescindível a participação dos diferentes segmentos da sociedade, como empresários, trabalhadores, universidades, classe política, Igreja, setor cultural, organizações não-governamentais, meios de comunicação, militares e profissionais liberais.
A integração regional não poderá, ainda, limitar-se ao campo comercial. Deverá, necessariamente, abranger obras de infra-estrutura, como rodovias, ferrovias, hidrovias, telecomunicações e energia (gás natural, petróleo e hidrelétricas). O social também não pode ser esquecido, estabelecendo-se ações conjuntas de proteção e recuperação ambiental, programas regionais de saúde, educação, alimentação e habitação popular, centros de aperfeiçoamento profissional e administração do trabalho.
Todas essas ações necessárias à integração regional representam um volume gigantesco de investimentos, privados e estatais, com reflexos profundos no crescimento econômico, geração de empregos e desenvolvimento nas nações do Continente. Cumprir essa tarefa seria fundamental para conferir à América Latina condições mais adequadas de competitividade e maior peso nas decisões, no contexto de sua integração com a Europa e também no âmbito da futura Alca.
Toda essa lição de casa que se impõe à América Latina para, em última análise, viabilizar a sua participação com soberania da economia globalizada, não terá como ser feita em curto prazo. O seu cronograma, porém, não poderá - e nem deverá - impedir os avanços da integração com a Europa. Até por que, a cooperação e o intercâmbio mais acentuados entre as duas regiões será fator com grande peso para o equilíbrio da própria economia mundial, a partir da concretização da Alca. É muito importante que a união euro-latina-americana se constitua em contrapartida à área de livre comércio americana, de forma que não haja uma predominância nos futuros parceiros no Nafta.
Não se pode subestimar a formidável economia dos Estados Unidos, que têm conseguido, mais do que os próprios europeus, japoneses e tigres asiáticos, enfrentar com mas competência os efeitos colaterais da globalização, dentre eles o desemprego. É exatamente este o problema mais congruente dentre os enfrentados pela União Européia e a América Latina. Por isso, um dos aspectos a serem intensificados no processo de integração, independentemente da lição de casa latino-americana, são os encontros entre pequenos e médios empresários para viabilizar joint ventures, parcerias, investimentos recíprocos e transferência de tecnologia. Essas iniciativas são imprescindíveis para fortalecer esse segmento empresarial, que representa 90% da estrutura econômica do Mercosul e 85% da União Européia.
- RUY MARTINS ALTENFELDER SILVA é advogado e presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje)


