Parece que já se disse tudo sobre eles e sua vinda para o Brasil em 1908 e a bordo do Kasato Maru. Mas como minha mente ocidental poderá captar o que sucedeu inicialmente aos 781 imigrantes japoneses que desembarcaram no Porto de Santos naquele longínquo 18 de junho, 90 anos atrás? Teria eu suportado todas as privações, sofrimentos, humilhações e angústias daqueles povos ‘‘descobridores do Brasil’’ sem me desesperar, sem perecer? Não sei. Teria me adaptado a um país tão diferente em termos de língua, alimentação, habitação, costumes, valores, religião? Não consigo responder.
De fato, não são simples as respostas a tais indagações, porque aqueles primeiros japoneses e seus descendentes não podem ser traduzidos apenas através de estatísticas. Isto não basta. Seria muito superficial, apesar de eloquente, interpretar a essência de um povo a partir de números.
É verdade que a produção japonesa na agricultura e em outras áreas é impressionante. Mas é preciso dizer que esta produção está intimamente ligada a uma maneira de ser. É necessário acrescentar que japoneses produzem assim porque possuem um tipo de cultura onde sobressaem valores ligados ao trabalho, à educação, ao mérito, ao sentimento de honra.
E se eles foram capazes se sobreviver em condições tão adversas quanto aquelas do Brasil inóspito com que depararam inicialmente, foi porque possuiam estrutura familiar peculiar, uma longa história de lutas onde tradições foram sedimentadas, e um tipo de religião que lhes permitiu transcender dificílimas condições de vida.
A soma desses fatores é igual a cultura japonesa, capaz de explicar o como e o porque da sobrevivência e no progresso dos 781 passageiros do Kasato Maru, desembarcados no Brasil naquela curva do tempo de 1908. E o como e o porquê dos seus descendentes, na sua maioria, desfrutaram hoje no Brasil de maior renda, de maior nível de escolaridade, de melhor nível de vida do que o restante da população. Sobre esse assunto seria recomendável ler o excelente artigo do arquiteto e escritor curitibano Luiz Carlos Cunha, que analisou ‘‘A epopéia do Kasato Maru’’ no Espaço Aberto da Folha , quinta-feira passada.
De minha parte sei que seria impossível explicar profundamente a cultura japonesa num pequeno artigo como este. Mas só para ilustrar o que disse acima, recorro a alguns estudos sobre o Japão. Entre os trabalhos mais relevantes encontro o livro ‘‘Who Prospers - how cultural values shape economic and political success’’, de Lawrence E. Harrison.
Nesta obra, entre outras análises, inclusive sobre o Brasil, o autor discorre sobre a família japonesa. Ele mostra o estilo de educação familiar baseado no confucionismo, que enfatiza a criança com membro do grupo, suprimindo assim o excesso de individualismo e fazendo-a consequentemente mais solidária.
Além do mais, as relações entre a mãe e a criança (pais japoneses geralmente não ‘‘disciplinam’’ os filhos), reforçam a mensagem do grupo e inculcam a necessidade de aceitação e indulgência para com os outros. A socialização das crianças japonesas envolve, pois, um profundo senso de responsabilidade com relação a seus pais e a sociedade além de orientá-las para a necessidade de realização. Desse modo, se o fracasso produz uma sensação de vergonha na maioria dos seres humanos, no caso dos japoneses isso leva a um agudo senso se culpa com relação aos pais e aos ancestrais.
Esses valores e tradições podem explicar por que os japoneses dirigem seus esforços, quando adultos, não apenas de maneira individualizada, mas também de forma cooperada, ressaltando-se assim o esforço de muitas pessoas imbuídas de alto senso de confiança mútua e de responsabilidade social.
A partir dessa visão fica, então, mais fácil explicar, por exemplo, o grande sucesso do sistema de cooperativas agrícolas japonesas. Outros valores como trabalho pesado como algo intrinsecamente bom; educação como principal meio de assegurar prosperidade; moderação e frugalidade como maneiras de atingir harmonia, segurança e progresso, também explicam o êxito dos passageiros do Kasato Maru e dos seus descendentes.
Na rica trama de tradições e religiões japonesas, recorde-se ainda a importância do zen-budismo para a cultura daquele povo. A cerimônia do chá incorpora os princípios fundamentais dessa religião e, conforme John Bowker em ‘‘Para entender as Religiões’’: ‘‘O caminho do chá nasce na crença de que a iluminação é um processo gradual que provém do mais elevado desempenho de cada gesto; o valor de uma ação encontra-se antes no seu desempenho do que na sua finalidade’’.
Penso que essa filosofia é difícil de ser assimilada e praticada por uma mente ocidental enquanto tomo apressadamente uma xícara de café. Entretanto, cada gesto foi desempenhado com perfeição pelos passageiros do Kasato Maru em terras estranhas. E seus descendentes compreenderam a importância do desempenho tanto nas atividades mais simples quanto nas mais elevadas. Saudemos, pois, esses brasileiros que nos tornam mais orgulhosos do nosso País.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga

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