Semana passada, telejornais (eu vi no jornal do Bóris Casoy, quarta-feira) divulgaram imagens de um cinegrafista amador tomadas de um discurso, em tom de comício, de líderes do Movimento Sem-Terra (MST) aos seus liderados. Eles diziam o seguinte, o primeiro: ‘‘...eles mataram dois companheiros nossos, mas desta vez não pegá nóis desprevinido (...) ...nóis vamo fazê ação, sim, se não sai mais da área pra ser desapropriada, e, é claro, nóis não vamo de novo entrá só com as bandera, atrás das bandera vai entra outra coisa também, porque não é possível nóis morrê enquanto que do lado deles ninguém cai... E nóis sabemo a força que eles têm, mais nóis sabemos a nossa força. Se eles têm jagunço armado, nóis temo um povo organizado, firme e decidido, e aí, pra se armá, não custa muito...’ E o segundo: ‘‘E nóis enquanto movimento de sem-terra, nóis vamo construi essa nação, e as nossas arma vão sê a foice e o facão, pra fazê a reforma agrária primero, como tá fazendo a reforma agrária, mas depois nóis vamo usa a foice e o facão pra botá pra corrê desse país essa tropa de safado que governa esse Brasil... E se as foice não forem suficiente, nóis sabemo o que vai se preciso pegar, não é? (...) Reforma agrária e umas coisas mais pesada nóis botamo esses cara pra corrê...(sic).
Estando os tais líderes participando da marcha do MST que veio a Curitiba, foram entrevistados a respeito daquelas imagens. Um deles respondeu: ‘‘Em nenhum momento eu ou tanto o Alemar dizemo que era pra nós andar armado. A prova disso é que todos os militantes, todos os dirigentes nossos, nós andamo desarmado’’(sic). O outro respondeu: ‘‘Eles estão tentando projetá aquilo que eles sempre fizeram em cima do MST, criminalizá o MST, fazendo montages atravéis de pronunciamento que se faiz num ato público nosso, e aí tirá as atenção sobre aquilo que eles estão diariamente fazendo, né?, que é o assassinato de trabalhadores’’ (sic). O Bóris Casoy emendou, a seguir, que o filme não estava parecendo montagem, que ficava claro ‘‘que as lideranças do movimento querem mesmo é uma revolução social, e que a reforma agrária e mero pretexto, pelo menos esses daí. A causa da reforma agrária é justa e está sendo usada por esse grupo fundamentalista como bandeira para suas verdadeiras intenções que são a criação de um regime comunista primitivo semelhante ao que pretendem os revoltosos Chiapas no México...’ (sic).
Tem gente achando que é paranóia esse negócio de pensar que o MST quer não a reforma agrária, mas revolução social. Afinal, os líderes que apareceram naquelas imagens negaram tudo. Como fez, também, aquele líder dos sem-terra que incitou à invasão de supermercados, e, noutra ocasião, a invasão de escolas. Apareceu na televisão falando isso, só que, no dia seguinte, diante da reação da sociedade e das instituições públicas, se desdisse, negou ter dito aquilo que ouvimos ele dizer.
Também não é motivo para paranóia, dizem alguns, o fato de muitos desses líderes haverem se declarado seguidores de Mao Tsé-Tung, o comunista chinês que liderou a revolução camponesa na China, que matou milhões de pessoas.
É paranóia querer continuar com essa coisa de serviço secreto da polícia militar e nas Forças Armadas, não precisa nada disso, dizem esses alguns.
O que os paranaenses testemunharam, semana passada, com essas marcha do MST à Capital, foi uma coincidência (não ‘‘orquestração’’, que é coisa de paranóico) impressionante: o Poder Judiciário, do alto de sua independência, soltou da prisão alguns líderes do movimento, acusados de serem responsáveis pela invasão e pelos danos cometidos contra a Fazenda Água do Prata - justamente quando a caravana já alcançava o Centro Cívico, carregando faixas com exigências, reivindicações, dentre as quais a soltura dos presos. Lógico que o Judiciário não se vergou ao movimento de rua (seria paranóico imaginar isso). A Justiça é serena e não pode agir ao sabor das pressões das multidões. Mas não foi isso o que os manifestantes disseram, enquanto celebravam a ‘‘vitória’’.
Tem uma porção de paranóico por aí, achando que basta um deslize do MST, uma invasão encrencada, na qual morram pessoas que não sejam os jagunços (!), e que a opinião pública mude radicalmente seu ponto-de-vista, os militares entrarão no teatro de operações.
De um lado, os paranóicos, com seus delírios de perseguição e conspiração, de outro, talvez, os esquizofrênicos, os que vivem fora da realidade, iludidos com sua visão de mundo. Resta saber se há outras classificações para enquadrar as frouxas autoridades constituídas.
- JOEL SAMWAYS é escritor e procurador do Estado do Paraná.

mockup