A campanha presidencial estará, fatalmente, atrelada aos palanques estaduais. Quem tiver maior número de palanques e, mais que isso, quem tiver palanques nos maiores colégios eleitorais, contará com boas possibilidades de crescimento. Nesse caso, terão importância estratégica os palanques de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Paraná. Não é por acaso que Anthony Garotinho ajustou o foco de sua estratégia para a montagem de palanques estaduais. Ele está certo. A estadualização da campanha federal decorre de um sentimento que se alastra pela população: a identificação com ações locais, regionais, mais próximas aos cidadãos. Trata-se da consolidação das práticas da micro-política.
A micro-política contrapõe-se ao plano das macro-questões nacionais. A competitividade no trabalho, a luta pelo bem estar, a precariedade dos serviços públicos, a insegurança crescente, os avanços impetuosos da criminalidade e o nervosismo das grandes cidades formam, entre outros, a amálgama que explica os novos códigos de conduta das pessoas e as demandas dos grupamentos sociais. O estado geral de promessas da política saturou a sociedade. Agora, os cidadãos querem coisas imediatas e viáveis nas áreas mais próximas ao dia a dia, como transportes, segurança, educação, saneamento, iluminação, habitação. A Pátria do futuro foi substituída pela Pátria para todos nós, já. Por isso mesmo, a estadualização da campanha e, em sua esteira, a contiguidade temática constituem um fenômeno central no planejamento do discurso dos candidatos.
Feita a observação, cabe, agora, mapear onde os três principais pré-candidatos terão palanque, de acordo com a posição dos partidos nos Estados e eventuais possibilidades de coligação. Serra contará com palanque em São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Ceará, onde o PSDB deverá ter bom espaço, com candidatos próprios ou em coligação. São colégios importantes. Roseana terá bons palanques no Paraná, Rio de Janeiro, Bahia e, dependendo da coligação entre PFL e PMDB, também no Ceará. Garotinho terá seu grande palanque no Rio de Janeiro. Está formando posições viáveis em Estados como RN. O Rio Grande do Sul não oferece bom palanque para nenhum deles. Em Minas, Roseana e Garotinho perdem palanque para Serra. Na Bahia, Serra e Garotinho perdem para Roseana. Em São Paulo, Serra terá o maior palanque, deixando na margem Roseana e Garotinho. Já no Paraná, de lado ficarão Serra e Garotinho, enquanto Roseana estará no centro. Em Pernambuco, Roseana e Garotinho perderão palanque para Serra. E no Ceará, Roseana, ao lado de Serra, poderá dividir o palco. A aritmética desses maiores palanques poderá melhorar ou piorar o ranking dos três.
A formação de palanques poderá ser destroçada, caso o Tribunal Superior Eleitoral regulamente as alianças estaduais. Nos próximos dias, decidirá se a aliança entre os partidos no plano federal (candidatura presidencial) deverá ser seguida no plano estadual. As primeiras indicações apontam para a ‘‘camisa de força’’. Se a decisão for no sentido retilíneo e homogêneo das alianças, provocará uma hecatombe no sistema político. Exemplo: se o PMDB se coligar ao PSDB, na chapa encabeçada por Serra, os Estados deverão seguir a mesma orientação. Surgem os problemas: como Itamar e Newton Cardoso aceitarão, em Minas, a convivência com o PSDB de Pimenta da Veiga? Quércia comporá com Geraldo Alckmin, em São Paulo? Sérgio Machado, candidato ao Governo do Ceará, comporá com o PSDB de Tasso? Impossível. Em 14 Estados (AP, AC, RR, PA, MA, CE, PB, TO, MG, RS, ES, GO, PR e SP), será impossível esta aliança. Em 13, poderá ser viável. Já uma aliança entre o PFL e o PMDB poderá ser viável em 14 Estados (AP, RR, PA, MA, CE, PE, PB, AL, RJ, ES, MS, SP, RS e DF). Mas em, pelo menos10, será impossível.
Ao que tudo indica, a decisão do TSE teria o dedo do PSDB, que estaria desejando engessar na marra os apoios a José Serra. O engessamento poderá ser um bumerangue. Se acontecer, para os partidos formarem alianças nos Estados, deverão estar livres, ou seja, sem candidatos no plano federal. Perderão, assim, a possibilidade de estarem no centro do poder. Sem um candidato viável à presidência, serão alijados e cooptados no varejo. Para o PFL, poderá até ser boa alternativa, na medida em que o partido terá a última palavra sobre suas decisões, ou seja, caminhando com candidatura própria ou se reconciliando com o PSDB e ganhando a vice. O PT perderá margem de manobra com a decisão, pois a realidade nos Estados inviabiliza qualquer iniciativa do partido na busca de espaços centrais. O mesmo engessamento derrubará Ciro e Garotinho, a não ser que eles se contentem com os pequenos territórios de suas agremiações. Os bombeiros de todas as alas estão sendo convocados para jogar água na fogueira que está sendo acesa no TSE.
O processo de viabilidade político-eleitoral passa, portanto, pela engenharia normativa. Poucos estão se dando conta disso.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e professor titular da Universidade de São Paulo (USP)

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