Há vários tipos de surdez. Existe a total, que impede o cérebro de receber qualquer som. E também as em graus menores, que apenas dificultam que se ouça o que ocorre lá fora da cabeça da gente. E existem algumas peculiares, nas quais as palavras soam bem e claras, mas o cérebro não consegue compreendê-las. E é comum que a mudez, trágico mundo silencioso e sem expressões sonoras, seja consequência de quem não conseguiu escutar. Não ouvir, não falar, não cantar, são os três personagens de um drama que limita tantos seres humanos... Nestes anos de medicina, confesso que muito mais aprendi com os deficientes sonoros, do que consegui-lhes retribuir em benefícios. Mas há outro tipo, igualmente trágico, inquietante e perturbador, o da surdez intencional. Afeta geralmente políticos. É do governante que lhe escuta, mas não ouve, se reflete no silêncio à resposta aguardada, uma antítese dos discursos de palanque, uma surdo-mudez oportuna para os ex-eleitores do Poder galgado.
Nada se compara, eticamente, a surdez intencional dos que se empolgaram no Poder, pois estampa, emblematiza a desesperança em ser ouvido, a ausência de uma igualdade tantamente palanqueada. Subir ao palanque é mais fácil que dele descer, tanto para vitoriosos e como aos vencidos: ambos se olvidam que dias, meses e anos continuam fluindo após o pleito, e de que seremos palavras e ouvidos de sua História. Eleitos ou não-eleitos, bem fariam em respeitar os que confiaram a fé em seus nomes.
Se enganam muito os políticos que creditam sua vitória a promessas; na verdade, são escolhidos ao tocarem cordas bem mais profundas de seus eleitores. Há uma fé no votar, que transcende as fúteis propagandas e fantasias da mídia. O eleitor, vota porque crê em seu voto. Nunca vi alguém votar sem crer. Frequentemente se vota é no desejo de que o eleito crie fatos novos, abra destinos, e que seja bom. Existe, creio, cínicos e insensíveis, mas penso serem poucos. Eu já errei, mas sempre votei com algum tipo de esperança, e assim como me alegrei na vitória, confesso que também já fiquei triste com o desempenho de meus eleitos, como farei ato contínuo.
Já se vão semanas, escrevi longas cartas sofridas, mas sinceras, aos Poderes Eleitos do Paraná, pedindo providências para uma selvageria sonora noturna e diurna que tomou conta a cada fim de semana, feriado ou férias na bonita praia de Caiobá, atormentando a vida dos turistas que ali aportam na busca de paz, alegria e repouso, para si e família. Tenho enfrentado noites extremamente selvagens, plenas de gritos e sons altíssimos que se prolongam por toda a madrugada, que se continuam em manhãs atormentadas por descabidos abusos sonoros, paradoxalmente incentivados pelo governo, e tardes à mercê dos descontroles de uma minoria barulhenta, que se inspira e se apóia nos abusos matutinos oficiais. Neste trio infernal de sons, o mar não pode sequer ser ouvido, não se repousa, e ninguém, sejam eles nenês, doentes, idosos ou adultos pode dormir ou meditar. Ficamos à mercê de uma perturbadora algazarra, que ali ocorre e sem qualquer controle. Como tenho apartamento lá há anos e não consigo mais repousar, o coloquei à venda, e desisti de vez, vencido pelos descontrolados abusos sonoros caiobanos. É duro confessar, mas desisti. Na derrota, porém, não vejo vitoriosos, pois que ela é filha de uma violência que me era até então desconhecida. Fico bem e civilizadamente, em uma cidade que tem ruídos e abusos normais, mas cujo o povo é infinitamente mais calmo, como tantas outras.
Entretanto, antes de me decidir, escrevi a cada um e a todos os Poderes do Paraná envolvidos, para evitar num esvaziamento de turistas de longe e que investiram ali, e que não vêm motivos para continuar indo à Caiobá, e sou apenas de vários. Nós, turistas de longe, temos gastos muito significativos quando vamos ao litoral, e bem maiores do os de quem se deslocam de cidades próximas. Mas, ninguém investirá em férias para se aborrecer. Ao final, o prejuízo recairá no comércio local. Afinal, temos infinitas praias pelo Brasil, para ficarmos nos atormentando em Caiobá.
Creiam, só recebi uma resposta, aliás de um secretário com quem me envolvera em longas e ácidas replicas e tréplicas, nesta mesma coluna; nela, além de esclarecer que sua Secretária não tem envolvimento nos fatos, delicadamente encaminhou minha carta a um destino que percebeu mais apropriado. Pelo ato pleno de cidadania, agradeço ao Dr. Eduardo Rocha Virmond, Secretário de Cultura do Paraná. Só isto, valeu.
Quanto aos demais poderes, confesso que pelas horas de redação e correio individual à Governadoria, Vice-Governadoria, Assembléia, Polícia Militar, Autoridades de Matinhos e Clero local, tive como resposta um silêncio gélido. Comodismo? Conivência? Mas é verdadeiramente triste esta democracia, onde uma voz de cidadão não ecoa, cai no vácuo, e sequer é respondida! Entretanto, é muito mais sério e lamentável que, por Vossos silêncios cúmplices e acomodados, a Violência Sonora assuma os fatos e nos dite seus atos! E que eu termine um investimento tão sonhado, e me retire de um litoral pequenino mas belo, onde pretendia passar longos períodos, no tempo de aposentadoria... Sofrido, e percebendo a dureza de Vossos ouvidos moucos, deixo alerta a turistas que buscam lazer e descanso: lá em Caiobá, ninguém cuida do silêncio, nem se dorme em paz. A coisa é brava, quarto mundo. E não recomendo reclamar, pois ninguém responderá. Errei, ali e no Poder, em expectativas de civilidade e respeito.

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