Os Oscar a conquistar - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de março de 1998
Walmor Maccarini 
Ganhar o Oscar não é a coisa mais importante do mundo. Se também não o ganhamos desta vez, não vamos ficar aborrecidos. Que é isto, companheiro? Tristes e preocupados devemos ficar pelos Oscar ainda por conquistar. Primeiro deles, o da nossa própria identidade como cidadãos cônscios e responsáveis perante as obrigações com a pátria e com a vida. Melhor do que a glória fugaz de um prêmio de cinema será recuperar, aos olhos do mundo e aos nossos próprios, o Oscar das nossas dignidades perdidas. Temos ainda que produzir um Brasil sério e melhor de se viver, para nos habilitarmos ao Oscar dessa categoria. Melhorar nosso padrão de atendimento de saúde, eliminar as penosas filas defronte do INPS e à porta dos hospitais, e aí poderemos ambicionar ser chamados à ribalta. Purificar de tal forma o próprio meio social, a ponto de emergirem dele cidadãos e governantes mais conscientes e responsáveis, e aí poderemos ouvir: The Oscar goes to Brasil!.
Já temos quatro Oscar da Academia do Futebol, porque nisto somos bons, e outros mais, revelando nossas potencialidades esportivas. Bom que os tenhamos conquistado. Mas eles são coisa muito pouca. Falta-nos produzir aquele filme real com o cenário de milhões de moradias decentes para os tantos que não as possuem; com o cenário dos negócios prosperando e os cidadãos trabalhando, dignamente empregados e bem pagos. E então nos habilitaríamos, confiantes, ao Oscar dessa modalidade. Já nos bastaria ser indicados para o prêmio. Produzir um filme não de efeitos, mas verdadeiro, que mostrasse nossa floresta amazônica preservada, e então o mundo nos olharia, respeitoso e reverente, e seríamos chamados para receber todas as condecorações.
Antes de um Oscar do cinema, melhor seria nos empenharmos por produzir mais e melhores escolas, mais e melhores centros de excelência de saúde, melhores atendentes nos balcões da burocracia, e então ouviríamos nos chamarem e nos dizer que the winer is...Brasil!. Seria bom ouvir. Antes desse pouco significativo Oscar cinematográfico, melhor se obtivéssemos um Oscar pelo mérito de sermos o povo mais bem alimentado do mundo, já que temos o privilégio das chuvas e do sol de 360 dias por ano e da terra dadivosa, onde se plantando tudo dá. Mas não temos nos preocupado com uma tal conquista. Antes, somos capazes de atravessar uma patriótica madrugada diante da telinha e lamentar porque a Academia de Hollywood nos desprezou mais uma vez, em favor dos holandeses...Pura perseguição americana!... Porque o nosso filme não tinha crianças - avalia inconformado o cineasta Arnaldo Jabor. Como se, ganhando a estatueta, não amanhecêssemos mais com aqueles nossos conhecidos problemas...
Não lamente, companheiro! Antes disto temos que resolver o problema dos colonos sem terra. Colonos, não simples sem-terra que tomam de assalto propriedades alheias, mesmo que produtivas. Isto resolvido, iríamos apanhar nosso troféu. Mas antes teríamos também que resolver o problema dos com-terra - a maioria - que, mesmo tendo-a, estão abandonados à própria sorte, pela ausência de uma política governamental que os contemple - eles que são os geradores do maior bem de produção, que é o alimento que nos mantém vivos. E aí ganharmos mais um Oscar.
Melhor seria um troféu por produzirmos comida para alimentar o mundo, porque dessa façanha somos capazes, já que temos terra e gente disposta a trabalhar nela. Só precisaria que leis e regulamentos e os sistemas oficiais não atrapalhassem tanto.
Companheiro, antes temos que cuidar dos desdentados e dos barriga-vazia, dos sem-estudo e dos sem-saúde, dos velhos sem amparo e das crianças excluídas, dos desempregados, dos doentes e dos milhões de jovens e adolescentes que se desviaram pelos caminhos da prostituição e das drogas.
Reverter esse quadro. E veríamos que belo efeito! E aí sim subir ao palco e apanhar o troféu desse Efeito Especial...
Esses são os Oscar a conquistar.
Ainda temos que ganhar o Oscar do Brasil do pleno emprego, da plena educação e da plena saúde; dos políticos politizados e dos governantes honestos e laboriosos.
Bom seria obter troféus destes. Não necessariamente sob os holofotes de Beverly Hills - porque lá não é o centro da inteligência universal - mas senti-lo em nossa própria realidade. Nos lembremos sempre, porém, de que os políticos são egressos do próprio meio. Então, se a sociedade como um todo não se melhora, não teremos nem bons políticos, nem bons educadores, nem bons empresários, nem bons jornalistas. Também não teremos juízes justos e nem servidores que sirvam.
Então, companheiro, libere essa ira por não havermos ganhado o Oscar nesta segunda-feira. Você tem direito. Mas se investimos pouco em cultura não podemos aspirar a conquista de troféus culturais. Embora prolifere por aí muita cultura do inútil.
Melhor seria investirmos na cultura da consciência... que aí todos os demais prêmios virão por acréscimo.
Que é isso, companheiro! Este do cinema é um Oscar do supérfluo diante da magnitude daqueles tantos outros que ainda temos que conquistar!


