O tradicional orelhão, telefone público que marca as esquinas de cidades brasileiras parece estar com os dias contados. Fala-se na sua retirada, devido ao pouco uso. Seguem reflexões sobre o reuso desse ícone urbano.

Segundo a companhia telefônica, os primeiros orelhões começaram a ser instalados em Londrina em 1973. Curiosamente, no Calçadão de Lerner (1977), os orelhões modernos não foram protagonistas tanto quanto os pergolados que definiam o ritmo de luz e sombra. Tenho uma foto de 2014, da esquina da Praça da Bandeira com o Calçadão. Foi tirada uma semana antes da destruição do peti pavê. Uma bateria de seis orelhões definia uma vista ao mesmo tempo futurística e atemporal. Continuam no local até hoje.

Londrina precisa preservar os marcadores de tempo: mobiliário durável que permita reconhecer épocas do desenvolvimento da cidade. Os orelhões são longevos, sentinelas do tempo. Resistem já há quase meio século. Indestrutíveis, refletem qualidade na concepção e design. Outros mobiliários, instalados posteriormente, enferrujaram e foram vandalizados em menos de uma década. Abandonados rapidamente, hoje são parte de ruina urbana.

Na Pequena Londres, Londrina, instalaram uma década atrás, cópias de “cabines telefônicas vermelhas inglesas”. Mudava o jeito britânico da auto-homenagem de tempos iniciais de Londrina, gravadas no nome da cidade, na praça em forma da bandeira do Reino Unido e nas heroicas narrativas. Sobraram algumas “cabines inglesas”. Li recentemente que, na Inglaterra, as tais “cabines vermelhas” foram adaptadas. Agora, várias tem painéis solares instalados no topo. Permitem recarregar a bateria de celulares. Resistem, no entanto, na mesma posição, no mesmo lugar. Mostra a importância da permanência e durabilidade do mobiliário histórico para fortalecer a atmosfera das cidades.

Voltando aos orelhões de Londrina. Numa cidade quase centenária, cuja população envelhece rapidamente, existe necessidade de melhor infraestrutura para idosos. Por exemplo, os hoje raros e invisíveis banheiros públicos. Evitar constrangimentos.

Cidades como Tokyo tem aplicativos para a localização de banheiros abertos, utilizáveis a cada momento. Não é o nosso caso. Penso na possibilidade de utilizar o suporte de telefone para fixar um útil mapa/painel com a localização de banheiros públicos e de uso público num raio de 100 metros. De quebra, permitiria o carregamento de celulares. Um exemplo. Que mapa/painel um orelhão perto da barragem do Igapó poderia mostrar? Sim, ali no ponto turístico não existem banheiros públicos. Assim, os orelhões podem servir de guia para a estruturação de um futuro “Mapa de Banheiros Públicos de Londrina - Londrina Toilet Plan”.

Finalmente. Retirar orelhões é tarefa imediatista e simples. Algumas coisas só sentimos falta após o seu desaparecimento. As cidades costumam apagar memórias e substituir por frágeis e instagramáveis equipamentos. Londrina não deve esquecer que, mais de uma vez, foi chamada de “Cidade das Marretas”. A cidade mais antiga, projetada ao longo da ferrovia, nas terras da CTNP, deveria saber utilizar o tempo e a história como estratégias a seu favor.

Humberto Yamaki, arquiteto, coordenador do Três Boccas Laboratório de Paisagem

mockup