Os olhos do demônio
Uma notícia que aparentemente não tinha nada a ver com o Brasil, onde não temos a pena de morte, chamou-me a atenção por ter tudo a ver com a natureza humana e seus abismos mais tenebrosos. Na televisão, o fato passou com a rapidez dos informes televisivos, que possuem grande impacto mas são fugazes. Mas foi no jornal, onde tudo permanece gravado para ser lido, relido, pensado, repensado e até guardado, que me dei conta com maior profundidade da execução de Timothy McVeigh, de apenas 33 anos. Ele morreu no dia 11 em Terre Haute, Estado de Indiana (EUA), quando lhe foi aplicada uma injeção letal.
McVeigh se celebrizou através do hediondez, da bestialidade, da crueldade, da estupidez. Foi ele o autor do atentado terrorista que mais pessoas vitimou nos Estados Unidos ao causar a explosão do Edifício Federal Alfred P. Murrah, em 19 de abril de 1995. O saldo de tal ato foi trágico: 168 mortos, entre eles, 19 crianças.
O motivo da ação do terrorista baseou-se numa quimera tão idiota quanto inútil: sua guerra particular contra o governo dos Estados Unidos. Assim, imbuído pela idéia estapafúrdia, ele sacrificou 168 vidas, algumas apenas se iniciando. Este agir foi o supremo atestado não de insanidade pois o assassino pareceu bem lúcido até o último instante de sua execução mas do nefasto fanatismo que tanto sofrimento já impingiu ao mundo em nome de religiões e de ideologias. Fanatismo que, sendo como um estado de obsessão maléfica, induz a quem por ele é possuído a viver como seu servo, e a matar e morrer por uma causa, na verdade um dogma, que substitui quaisquer resquícios de piedade e de humanidade.
Timothy McVeigh não pensou, por exemplo, em opor-se ao governo do seu país ateando fogo em si mesmo numa praça pública. Seria um ato particular mas de supremo protesto, pois daria a vida por algo que supunha justo e correto. Mas ele preferiu matar os que nada tinham com seus devaneios sinistros e, desse modo, bebeu o prazer da notoriedade junto com o sangue de suas vítimas.
Antes da execução, McVeigh pediu dois potes de sorvete e distribuiu cópia do poema Invictus, composto pelo poeta inglês William Ernest Henley, em 1875, cujos dois últimos versos dizem: Sou o senhor do meu destino; sou o capitão de minha alma. Conforme noticiado, o terrorista demonstrou até o último instante a mesma frieza que caracterizou seu comportamento desde que foi sentenciado à morte em 1997. Ao ser levado para a sala de execuções, o réu encarou firmemente as 24 testemunhas, entre as quais estavam 10 representantes dos parentes das vítimas. Depois, deitou-se sozinho na mesa de execução e seus olhos se mantiveram fixos na câmara de TV instalada no teto da sala, que transmitia a execução em circuito fechado para Oklahoma City. Segundo uma testemunha, ele morreu de olhos abertos.
Assim, naquele instante fatal e tenebroso, o jovem Timothy McVeigh, que se arvorou em senhor do seu destino e no de 168 pessoas, capitão de sua alma monstruosa, personificou o mal, e as pessoas de Oklahoma City, entre as quais mais de 200 sobreviventes e parentes das vítimas do atentado, puderam ver os olhos do demônio fixados em suas retinas horrorizadas.
A morte do frio assassino evidentemente não baniu desse mundo o mal, que chamamos de demônio. O mal é o locatário do Planeta Terra, e McVeigh não foi o primeiro nem o último a distribuir desgraça e dor. Muitos já o fizeram em nome de equivocados ideais e continuarão a fazê-lo. Como, então, lidar com isso, podemos perguntar, duvidando da nossa espécie e imersos no temor do nosso semelhante.
Dia destes, recebi um e-mail de uma jovem aluna. Hylea, é este seu nome, mandara-me um texto onde alguém descrevia um personagem mergulhado em profunda descrença. Era o retrato de um suicida para o qual nada havia sentido. O autor queria demonstrar o Nada, e no Nada mergulhou, matando seu personagem. Ironicamente, o texto era assinado por um hipotético Jesus Cristo. Fortes e capazes de abalar qualquer um, aquelas linhas amargas perturbaram Hylea, que me pediu uma opinião.
Respondi-lhe o que se segue, buscando mostrar-lhe o antídoto para os olhos do demônio que sempre nos miram: De fato, minha cara Hylea, o texto é impressionante. Mexe com a gente. Lembra o Mito de Síssifi, de Camus. Mostra que não há saídas. O mundo aparece nitidamente como o palco do absurdo. Mas sabe o que acho? Faltou a quem escreveu aquilo, com a mente de um suicida, o amor. Podia ser o amor fraternal que os gregos chamavam de Ágape, ou o amor referente ao deus Eros que acontece entre homem e mulher, ou mesmo o amor de amigo, Filo. O autor não tinha nenhum desses amores dentro de si, e sem amor tudo se torna vazio. Por isso entendo agora o que disse São Paulo: Deus caritas est (Deus é amor). É que sendo Amor ou Bem Absoluto, a Causa das causas é o oposto do Mal e, portanto, de sua consequência, a ignorância, fonte de toda infelicidade humana. Lembro-me também do que Mozart escreveu numa carta: Viemos ao mundo para aprender e nos iluminarmos uns aos outros. Isso, Hylea, confere sentido à vida pois contém amor, diferindo da brutalidade e da ignorância que infelizmente são também atributos da humanidade.
Penso, então, que a vida em si já é afirmação, o que difere da negação ou do Nada sobre o qual o suposto Jesus Cristo escreveu. A vida significa ser e estar, poder criar e mover dentro dos limites do livre-arbítrio e da liberdade. Portanto, a vida não pode ser em vão. Temos que conferir a ela um sentido, e só cada um de nós pode fazer isso pois somos os capitães de nossa alma. Mas se não houver em nós amor, que é plenitude, tudo se apaga e nos defrontamos com o Nada ou tentamos preenchê-lo com o oposto do amor, o ódio.
Só os que amam constroem sonhos e cultivam esperanças, e foi amor que faltou ao desesperançado autor do texto sobre o suicida. Seu personagem morreu de desamor. E foi por desamor que McVeigh matou 168 pessoas. Somente o amor nos habilita a enfrentar os olhos do demônio.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora e professora universitária em Londrina
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