O Brasil não está diferente dos países do mundo onde predominam as guerras e cujas populações vivem em constante sobressalto, porque, como se viu pela estatística divulgada esta semana por este jornal, os números do medo, no País, são assustadores. E medo não de assombrações, como costumava ser no passado e que povoava o imaginário porque não havia outros temores e vivia-se em paz nas cidades e em toda parte mas medo dos semelhantes; medo do assalto e de atentados contra a integridade física e contra a vida.
O estudo mostra que Curitiba, especialmente, tem um dos mais altos índices dessa tensão, igualando-se a São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza e Porto Alegre, onde 61% a 62% da população vivem sob o clima do medo. O restante do País tem percentuais mais baixos, porém não está imune. Uma característica surpreendente da capital do Paraná é que a insegurança apavora mais a classe pobre, enquanto nos outros lugares os mais atemorizados são os ricos e as pessoas no geral, independente de nível social.
Daí deduz-se que as casas e as pessoas pobres também são visadas pelos ladrões e assaltantes, e que eles se contentam igualmente com o pouco, pois não existem ali grandes valores a subtrair. São, portanto, pobres porque, na maioria, os ladrões o são roubando ricos mas também roubando os seus iguais, significando que não existe uma ideologia criminosa voltada para os mais abastados, mas, simplesmente, uma necessidade e uma disposição de roubar.
Se essa histeria coletiva já é um estado de convivência com o terror, muito mais grave é quando o medo se converte em realidade, uma ocorrência frequente. Não é vão o temor da população, e é conhecida a causa que leva a esses atentados contra o patrimônio alheio. Ela reside na miséria social, que atinge quase um terço da população brasileira e que se agravou intensamente nestes oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso, pela ausência de políticas públicas de desenvolvimento, o que gerou desemprego e agravou a pobreza de tantas famílias.
Com isso, foram atingidos todos os brasileiros os que roubam e violentam, estes também vítimas, e aqueles que os temem e são as suas presas. A fome, sempre péssima conselheira, está no cerne dessa anomalia social, e precisará ser combatida. A campanha emergencial anunciada pelo novo governo, e que será deflagrada já em janeiro, se faz necessária, mas sabe o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e sabem os brasileiros que, a par dessa cruzada assistencialista, será preciso investir em políticas de longa duração no sentido de proporcionar o emprego que dignifica o cidadão e o afasta da marginalidade e do risco de ingressar na delinquência.

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