Os números da ladeira
Renan Calheiros
O relatório trimestral sobre o comportamento da economia brasileira, elaborado pelo Comitê de Política Monetária, menos do que uma obrigação legal e burocrática, deveria servir de reflexão para a própria equipe econômica do governo federal, uma vez que os números são inquietantes.
Na área de consumo, comparando-se o primeiro semestre de 1999 com 1998, foi registrada uma queda de 3,7% no setor atacadista e um declínio de 4,7% no varejo. A venda de automóveis foi reduzida em 24%, a produção industrial registrou um decréscimo de 3,2% e o desemprego atinge oficialmente 7,79% da população economicamente ativa.
Estas estatísticas, limitadas à comparação do primeiro semestre de 99 e 98, não são nada alentadoras. Mais impressionantes são os dados do ‘‘Boletim Econômico e Fiscal’’ da Fenafisco, que faz uma radiografia macroeconômica dos últimos cinco anos.
A taxa de desemprego em cinco anos pulou de 13,2% para 18,3% dos 75 milhões de brasileiros economicamente ativos. Já são, pelo Dieese, 15 milhões de desempregados. No mesmo período, as reservas internacionais em dólar caíram de US$ 52 bi para US$ 42,1 bi.
A dívida externa subiu em 43,8%, saindo de US$ 159,26 bi em 1995 para 228,19 bi em 1998. A dívida interna foi além e cresceu 100%. Passou de US$ 170 bi em 1995 para US$ 340 bi em 1998. O déficit público também cresceu em 92%, a taxa de juros aumentou com uma previsível queda na produção industrial e a carga tributária, que em 1995 era de 25% do PIB, saltou para 30% do Produto Interno Bruto (PIB) no último ano.
Estes números já são suficientes para observarmos o que está sendo priorizado pela atual política econômica. Entretanto, outros dados são extremamente relevantes e devem ser registrados. Eles evidenciam que a globalização no Brasil tem outro nome: desnacionalização.
Nos últimos cinco anos, a participação do capital estrangeiro no patrimônio líquido das empresas nacionais cresceu em 78%. Esta participação subiu de US$ 72 bi em 1995 para 129 bi em 1998. O pagamento de juros da dívida externa evoluiu positivamente em 51% e mesmo assim o principal da dívida externa saltou 43%. Com a desvalorização ela deve estar acima de 35% do PIB.
O desdobramento óbvio foi o meteórico crescimento da remessa de lucros para o exterior em detrimento do mercado interno. As remessas aumentaram em 102%. Em 1995, foram repassados para fora do País US$ 3,5 bi e em 1998 esta cifra atingiu US$ 7,1 bi. Os lucros das empresas não estão sendo reinvestidos, mas drenados para o exterior.
Os números não comportam paixões políticas. São dados concretos e, não sendo precisos, necessitam de uma explicação cabal do governo. Do nosso lado, as reservas estão caindo, os juros subindo, foram-se as empresas nacionais e as dívidas (interna e externa) só cresceram, a inflação atingirá 15% este ano, os salários estão congelados, o desemprego cresce, os impostos aumentam. Do lado do paraíso, os lucros continuam chegando às custas do suor e infelicidade de nosso povo. Algo está errado.
- RENAN CALHEIROS é senador do PMDB-AL

mockup