Num dos meus livros, ‘‘América Latina, em Busca do Paraíso Perdido’’, referi-me a grandes navegadores que em meio a dificuldades sem conta e perigos sem fim, acabaram por descobrir mundos novos, diferentes de suas realidades e, por isso mesmo, fascinantes. Aqueles navegadores do passado possuíam certas características como a coragem, a ambição e a inquietude, além de uma fantástica capacidade de imaginação.
Entre estes homens admiráveis relembro Cristóvão Colombo, o inquieto genovês que aprendeu cedo a navegar e deslindou sozinho as técnicas de navegação e de timonear, e as artes da cartografia. Autodidata, leitor incansável, tinha predileção pelas descrições de Marco Polo sobre o Oriente. Provavelmente foram aquelas aventuras incríveis que incendiaram ainda mais sua imaginação, fundindo ambição e idealismo, lenda e realidade, para produzir a determinação obsessiva que o levou ao ‘‘paraíso perdido’’, visível às duas da madrugada de 12 de outubro de 1492, e anunciado em alto e bom som pelo marinheiro Rodrigo de Tiana, com a emoção adequada ao momento: ‘‘Tierra!’’
1498. Vasco da Gama, que perfizera a rota de Bartolomeu Dias, regressa de Calicute. Planeja-se outra expedição a fim de obter mais glórias portuguesas e, em especial, mais lucros comerciais, que era o que de fato interessava na Ásia. Nada indicava que se pretendesse descobrir novas terras. Seu caráter era diplomático e comercial.
Nas condições da época, aquele arrojar-se aos mares constituía uma grande aventura, que, sem dúvida, excitava as mentes e os corações dos experimentados marinheiros, dos indefectíveis missionários, dos nobres, dos degredados, dos soldados, de toda aquela gente das mais variadas categorias sociais, que a bordo de 13 naus partiu da praia de Restelo em 9 de março de 1500 sob o comando de Pedro Álvares Cabral.
Ventos e tempestades desviaram a rota da esquadra, trazendo Cabral e sua tripulação para um local por ele denominado de Porto Seguro, naquele distante 22 de abril.
1535. O rei espanhol Carlos V confia a Pedro de Mendoza a missão de descobrir um lendário reino índio de fabulosas riquezas, a Trapalanda, no remoto, vastíssimo e desamparado Território da Prata.
Em 1536, Mendoza chega ao rio da Prata, onde acampa com os 1.600 homens que havia trazido em 16 navios. Ao acampamento, dá o nome de Puerto de Nuestra Señora Santa María de Buen Aire. Mas em vez de Trapalanda, os audaciosos conquistadores encontraram naquelas paragens inóspitas a fome, as doenças e os ataques dos índios. Mendoza morrerá em alto mar tentando voltar à Espanha.
Mesmo assim, povoamentos foram sendo semeados e, ao longo do século 16, 25 cidades, das quais 15 sobreviveram, foram fundadas pelos espanhóis no que viria a ser a Argentina. Em 1580, Juan de Garay repovoou o abandonado povoado de Buenos Aires, que desta vez renasceu para ficar.
2001. As conquistas territoriais estão completas, exceto em locais restritos em termos planetários, onde lutas ainda são travadas para a determinação de territórios, como é, por exemplo, o caso de judeus e palestinos. Todos os mares já foram navegados. A última esquadra há muito já desapareceu no oceano dos tempos, e os destemidos descobridores, aqueles semeadores de povos e países, singram, quem sabe, dimensões desconhecidas.
Mas eis que outros mares nunca dantes navegados se agigantam diante dos modernos navegadores, semeadores dos fascinantes mundos do conhecimento, descobridores de territórios inexplorados onde a travessia se faz no plano das mentes e dos corações. Estamos na era da Internet. Navegam a bordo dos seus computadores internautas de todo o mundo.
Nas novas descobertas não se dispensa a coragem de ir além. A ambição é a mesma nos faturamentos fabulosos, a inquietude continua como característica imutável do ser humano e a imaginação, ah, a imaginação mais do que nunca anda solta, rompendo barreiras, penetrando mistérios, viajando pelas sensações, transpondo os limites do corpo para aportar em novas ilhas de contato humano. Assim, a Internet é o mágico território das possibilidades inesgotáveis, o Calicute do futuro, a Trapalanda de riquezas inimagináveis e, sobretudo, o reino encantado da palavra. Portos seguros e portos inseguros estão na Rede e navegando-se chega-se a eles, porque navegar é preciso, como no passado o foi para Colombo, Cabral ou Mendoza. Afinal, como o sonho, a aventura não acabou.
Não faltam os descrentes, os críticos, os adversários desta Revolução que vai alterando hábitos, costumes e comportamentos, como é o caso das meninas que não brincam mais de boneca mas de Internet. Uns criticam o baixo nível dos bate-papos eletrônicos, o excesso de informações e a qualidade duvidosa de muitas delas, o erros de ortografia, a alteração do inglês usado inadequadamente.
Mas há algo muito além disso. Existem os ‘‘milagres’’ da Internet. Através deles mentes afins se aproximam e compartilham prazeres estéticos e artísticos em pontos diferentes do Brasil e do mundo; a comunicação se aprimora e se torna instantânea; e ao ser humano é permitido, pela primeira vez, transpor os limites físicos para romper sua solidão através do intercâmbio de sentimentos e idéias. Neste ‘‘milagre’’ revolucionário, engendra-se uma nova linguagem, que brota do texto através de sensações em profundidade. É uma forma de comunicação que aflora, diferente daquela quando se fala pessoalmente ou ao telefone. E ainda será possível mandar um e-mail perfumado como as cartas românticas de antigamente.
Portanto, críticas à parte sobre o ‘‘lixo’’ da Internet, encerro este artigo com as palavras de Fernando Pessoa: ‘‘E outra vez conquistemos a distância / do mar ou de outra, mas que seja nossa.’’
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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