Para ganhar a batalha da reeleição, Fernando Henrique vem batendo em duas teclas. Primeira: a decisão é do Congresso e são os parlamentares que têm de resolver se é ou não do interesse do País que os chefes do Executivo possam se candidatar a novo mandato. A segunda é decorrente desta: o presidente diz que não barganha votos, não instala balcão de trocas, nem se envolve nas negociações para aprovar a emenda que permitirá a ele disputar outra vez o comando da República.
Ninguém precisa acreditar que isso é verdade. A prática do Brasil já ensinou como é que se conseguem as coisas no Congresso. Mas manter as aparências é questão de vida ou morte para FHC. Qualquer concessão desmesurada agora pode custar caro durante a campanha. Os adversários estão de olho. O maior deles, o prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, já disse com todas as letras que conta com o desgaste inevitável das negociações pela reeleição para cacifar sua própria campanha à sucessão de Fernando Henrique.
Tudo isso torna mais instigante desvendar as razões que teve o presidente do Congresso, José Sarney, para inopinadamente vincular a aprovação da reeleição à desistência do governo de privatizar a Vale do Rio Doce. Numa frase das mais infelizes, Sarney deixou claro que os mais renitentes opositores da emenda constitucional poderiam mudar de posição caso Fernando Henrique anunciasse o cancelamento da venda da estatal. A barganha ficou explícita, obrigando o presidente a anunciar que está fora de cogitação condicionar uma coisa à outra.
Ora, Sarney não é nenhum ingênuo na política. Ele sabe exatamente o que significa uma declaração sua naquele contexto. Raposa que é, tem instinto para prever, uma por uma, todas as consequências de propor regras para o jogo da reeleição. Ele próprio se define contrário às duas propostas - a venda da Vale e a emenda da reeleição. Conhece muito bem, além disso, as pressões que sofre o outro lado do balcão. Não faz muito tempo, Sarney instalou grande bolsa de trocas políticas por um ano a mais de mandato no Palácio do Planalto.
O que quer Sarney então? Ao sugerir uma negociação em torno da não-privatização da Vale, o presidente do senado parece ter inviabilizado, em primeiro lugar, o próprio movimento em defesa da estatal, do qual é um dos apoiadores. Pressionando Fernando Henrique, ele pôs em risco exatamente esses interesses.
Talvez então seja possível concluir que o empenho maior de Sarney seja impedir a aprovação da emenda da reeleição. Inibindo a desistência da venda, ele estará colecionado desgostosos com o governo. E, possivelmente, juntando votos contra os interesses de Fernando Henrique. Que Sarney não dá ponto sem nó, até os postes do Maranhão têm conhecimento. Resta saber qual é a intrincada costura que ele faz nos bastidores.
- MÔNICA WALDVOGEL é jornalista em Brasília.

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