Os inimigos de Renan Calheiros, embora também não sejam o que se possa qualificar de santos homens, declaram que ele é vingativo e que não os poupará, quando puder, e que continuará beneficiando os amigos. Por se julgar no momento um vitorioso, ele certamente ressurgirá mais contundente com os adversários e mais generoso com os que estão de seu lado. Segundo revelação do jornalista da Agência Estado João Domingos, que atua nos parlamentos em Brasília, o Senado sob o comando de Renan é uma casa de favores, porque ele contempla os companheiros e assim obtém retorno em simpatias e em votos, quando necessário.
Ainda respondendo a processos na Justiça, por denúncias de corrupção, o senador alagoano não é apenas o homem das anunciadas despesas pagas pela empreiteira, mas personagem central de outras acusações. Um caso veio puxando outro, e ao menos pelo voto legislativo de seus pares ele já se livrou da cassação. Que eventualmente poderá ainda acontecer pela via judicial, no que a população em sã consciência não acredita, até porque deverá escassear a suficiência de provas, como de hábito. Embora esse fato não transforme um corrupto em inocente, assim é o procedimento legal. Ao longo dos 181 anos de existência do Senado apenas cinco senadores foram cassados legalmente e um por via ditatorial (no regime militar), embora também pelo delito de corrupção.
O jornalista citado denuncia que Renan autorizava viagens internacionais a amigos, com direito a acompanhante, passagem aérea de primeira classe em muitos casos, hotéis caros e ajudas de custo. E tudo, obviamente, com dinheiro público. E mais contratação de parentes para funções públicas, concessão de carros novos a seus pares conforme as conveniências, aprovação de gastos abusivos e assim por diante. Só isso seria suficiente para investigação e cassação - em países de regimes políticos sérios, naturalmente. Portanto, ''foi à base de favores, agora muito bem cobrados, que Renan Calheiros conseguiu boa parte dos 46 votos para sua absolvição'' - afirma o jornalista. São pequenos favores, mas suficientes para reverter posições de políticos corrompidos.
Pela lei orgânica vigorante, o presidente do Senado tem grande poder. Ele ordena os projetos para entrarem em pauta, inicia ou retarda CPIs, transforma sessões públicas em secretas, impugna projetos, desempata votações, assina correspondência do Senado ao presidente da República, aos tribunais e a governos estaduais. Também tem poderosa influência para indicar ministros e outros altos funcionários. Tudo legítimo se, no Brasil, tais poderes não fossem utilizados também para a corrupção.

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