Enfim, aconteceu: o general Augusto Pinochet, no ocaso de seus 82 anos, foi surpreendido em Londres, onde se recupera de uma cirurgia na coluna, por um pedido de prisão que faz parte do trâmite de sua extradição para a Espanha, a pedido de um obstinado juiz. A prisão de Pinochet é irônica e simbólica. No primeiro caso, porque ele acabou vítima da Justiça britânica, que ele tanto cultua(ava), e está detido num país que para ele é o símbolo da harmonia entre modernidade e tradição, país que ele apoiou durante o conflito das Malvinas, mandando às favas as relações com a vizinha Argentina.
E simbólica, porque ocorre num momento de fragilidade física de Pinochet e quando ele se julgava, enfim, protegido de eventuais represálias jurídicas em seu país pelos extremos - e em muitos casos crimes hediondos - cometidos durante o longo regime militar que ele comandou de 1973 a 1990. O cargo de senador vitalício, meticulosamente planejado por ele ao longo de seu governo, e que assumiu no início do ano depois de se afastar do comando do Exército, dá-lhe imunidade. Esta imunidade, questionada por seus opositores mas respaldada pelo regime jurídico chileno, de nada lhe vale do outro lado do Atlântico.
Gabriel García Márquez, em ‘‘O Outono do Patriarca’’, narra as desventuras, a solidão, a incompreensão que cerca o velho donatário caribenho, tema a que recorre, sob outra roupagem magistral, em ‘‘Ninguém Escreve ao Coronel’’. A evocação desses dois personagens literários, homens que detiveram todo o poder mas que sucumbiram sob o peso do esquecimento, é apropriada para compreender o drama do velho general chileno, ameaçado de trocar o sossego que pretendia desfrutar confortavelmente em seus últimos dias pela espera da morte numa cela em algum lugar da Espanha.
A decisão do juiz espanhol Baltazar Galzón dividiu a sempre dividida sociedade chilena, é polêmica, sem dúvida, mas tem fundamento em convenção das Nações Unidas sobre a tortura, convenção assinada tanto pela Grã-Bretanha como pela Espanha. Qualquer pessoa acusada de tortura pode ser detida, julgada e presa nos países signatários do acordo - e este é o drama de Pinochet, que vê se avolumarem as pressões para que os dois países dêem um encaminhamento rigorosamente jurídico ao processo sem se curvarem a critérios políticos.
A aceitação de um eventual pedido de extradição espanhol por parte do governo britânico é considerado certo. Os trabalhistas de Tony Blair teriam, com isso, um elemento a mais para reforçar sua estratégia de marketing sobre a Terceira Via e outras inovações que estão adotando em seu recém-instalado governo.
Politicamente, Pinochet, portanto, está na dependência do governo espanhol que, em última instância, é quem irá se pronunciar sobre a formalização do pedido de extradição à Grã-Bretanha. José Maria Aznar, o conservador primeiro-ministro espanhol, poderia não estar disposto a avalizar a demanda por motivos mil, que vão do terreno ideológico ao comercial, já que a Espanha mantém interesses estratégicos no Chile. Se autorizar o pedido de extradição de Pinochet, Aznar poderá estar comprometendo uma rica parceria com o país andino; se recusar, com certeza despertará a ira dos socialistas, e é bom não esquecer que o Partido Socialista Operário Espanhol é a segunda força política do país deteve o poder, sob o comando de Felipe Gonzalez, por mais de uma década...
A sorte (ou o azar) de Pinochet está lançada. Os mais de 3 mil mortos, muitos deles torturados, por seu regime de força clamam por justiça. A hora poderá ter chegado.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha em Londrina

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