A Argentina continua tristemente a sua marcha em direção ao abismo. A notícia de que o governo central daquele país não conseguiu negociar com os governadores de provícias um reparte mais racional dos impostos é grave. Está na raiz da incapacidade do Estado argentino sair da crise.
Pelo menos ainda há vida inteligente na cúpula do governo. O ministro Jorge Remes Lenicov, segundo a imprensa, alertou as lideranças políticas para tentarem disciplinar o discurso do presidente Duhalde, que sempre fala mal do sistema financeiro e das empresas privatizadas. Segundo ele, nessa marcha a Argentina se transformará em uma Cuba ou uma Venezuela. Bingo!
O fato é que não se constrói uma economia forte sem um sistema financeiro forte e funcional e sem empresas privadas – ou mesmo privatizadas – fortes. E também sem que as instituições estatais funcionem, pois são elas, afinal, que moldam o arcabouço institucional onde se move o mercado. Isso significa uma estabilidade jurídica, um Judiciário operante e um Executivo que faça a sua parte.
A Argentina está longe disso. Vemos que o principal líder do país acredita que os culpados pela crise são outros que não o próprio Estado e sua exorbitância. Os demônios são muitos no imaginário populista, indo do sistema financeiro e das privatizações, até o FMI. E na verdade o problema está lá onde sempre esteve: na exorbitância do gasto estatal, da regulamentação estatal, da emissão de moeda estatal, de políticas equivocadas praticadas pelo Estado, do tipo prática de taxa de câmbio irrealista, e da incapacidade estatal de pagar as suas próprias dívidas.
O drama é que ninguém pode resolver nada se não há clareza sobre a realidade dos fatos. Enquanto a classe política não perceber onde está o problema, não haverá como tomar as decisões corretas. É navegar em mar revolto sem bússola e outros instrumentos de navegação. Simplesmente não sabem onde estão e nem aonde querem chegar. Estão simplesmente perdidos.
Aquilo que se esperava na Argentina está acontecendo: a emissão descontrolada de pesos. A hiperinflação está chegando. O esporte mais aprazível dos populistas é emitir dinheiro falso. Agora estamos vendo o salto final no abismo. Além da crise cambial, da crise da dívida, da retração do PIB, vem aí a cereja do bolo: a explosão dos preços.
Que Deus tenha piedade do povo argentino!
JOSÉ NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP)

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