As eleições deste ano, que se completaram domingo com o segundo turno para os governos de 12 Estados e o Distrito Federal, trouxeram alguns ensinamentos. Dispensando maiores preâmbulos, vamos a eles:
O marketing político, setor em franca expansão, sofreu um grave arranhão em alguns Estados, sendo São Paulo o mais visível deles devido ao confronto de dois pesos-pesados da política, o governador Mário covas (PSDB) e Paulo Maluf (PPB). Duda Mendonça, o mais badalado dos marketeiros, ficou com a ingrata tarefa de conduzir Maluf ao Palácio dos Bandeirantes, onde certamente ele pretendia ficar pouco tempo porque sua meta, de conhecimento público, é o Palácio do Planalto. Pois bem, todos os truques do marketing, habilidosamente aplicados por Duda em seu submisso cliente, viraram pó diante de um insípido, turrão, porém eficiente admistrador. Lição número um: a eficiência administrativa é a mais eficiente das propagandas (com o perdão pela redundância).
Cristóvam Buarque, do PT, não conseguiu se reeleger. Foi derrotado por Joaquim Roriz (PMDB), que retorna ao governo de Brasília catapultado por sua demagogia, populismo, clientelismo e outros vícios da arte da política. Buarque, que instituiu a Bolsa-Escola, o Banco do Povo e outros programas de cunho social, além de apresentar ótimo desempenho administativo, teve o apoio dos eleitores do Plano Piloto, a região mais próspera e culta de Brasília, mas acabou abatido nas cidades-satélites, de população majoritariamente pobre. Lição número dois: o populismo é mais eficiente que a eficiência administrativa.
O Rio de Janeiro permitiu ao PDT voltar, depois de ter perdido o Paraná com a debandada de Jaime Lerner para o PFL, ao comando de um Estado poderoso. Anthony Garotinho, 38 anos, esmagou o veterano e malicioso César Maia, do PFL, que, além de já ter sido prefeito do Rio, e bom prefeito, diga-se, cunhou a expressão factóide para explicar um de seus principais hobbies: apregoar como verdade algo que não é, poderia vir a ser, porém jamais será. A invencibilidade nas urnas, atributo que dizia possuir, revelou-se o mais autêntico dos factóides. Lição número três: de tanto abusar dos factóides, Maia acabou se transformando em um.
As eleições no Mato Grosso do Sul produziram um milagre que faz pressagiar o final dos tempos: o candidato petista, e agora governador eleito, Zeca do PT, conseguiu a façanha de ser apoiado pelo senador Pedro Pedrossian (PTB), derrotado no primeiro turno, homem de inegáveis tendências conservadoras. E mais, na véspera da eleição, o senador Lúdio Coelho, o maior dos latifundiários brasileiros, pediu votos para o petista. O motivo desse engajamento apocalíptico dos ruralistas na campanha do petista não exige conhecimentos bíblicos, pois Zeca, que tem o natural apoio do MST, será um interlocutor natural e confiável entre os pecuaristas e os sem-terra. Na condição de governador, e uma vez tendo recebido o apoio dos pecuaristas, Zeca terá de exigir moderação dos sem-terra no processo de invasões. Lição número quatro: as eleições podem converter o lobo no mais zeloso dos pastores de ovelhas.
Jáder Barbalho, Íris Rezende e Antônio Britto se engajaram numa briga de foice para conduzir o PMDB a apoiar a reeleição de Fernando Henrique e a engajar-se de olhos fechados às diretrizes do presidente tucano. Os eleitores não tiveram complacência com nenhum dos três: Barbalho foi derrotado no Pará por Almir Gabriel, reeleito pelo PSDB; Rezende foi humilhado por Marconi Perillo, um garoto de 35 anos, também do PSDB; e Britto, outro governador tido por eficiente, perdeu para o petista Olívio Dutra. Do outro lado da trincheira, o rebelde Itamar Franco pôs por terra os planos de reeleição do tucano - e também bom administrador - Eduardo Azeredo e se fortalece para disputar a presidência da República. E ainda Paes de Andrade, ex-líder da ala rebelde do PMDB, não conseguiu reeleger-se senador. Lição número cinco: o PMDB está mais dividido do que nunca e nenhum dos lados pode pôr a culpa no outro.
Lição final, a mais bela e gratificante de todas: as urnas conseguiram retardar por mais quatro anos os planos presidencialistas de Paulo Maluf. Obrigado, São Paulo.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha em Londrina

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