O coração do homem não é só o órgão central da circulação, é também o grande mito da humanidade. Os humanos acreditam que o coração pode pensar, amar e odiar. Por isso, o homem escolheu uma data para homenageá-lo: 29 de setembro, dia universal do coração.
É óbvio que o coração não tem sexo, religião e intelectualidade. A prova são os transplantes: pode-se transplantar o coração de um ateu numa pessoa religiosa; um coração feminino num homem; e o coração de um analfabeto, numa pessoa de graduação universitária. Até mesmo uma pessoa que nunca soube amar pode receber o coração de um jovem apaixonado. Estes pacientes, depois de receberem os transplantes, continuarão como antes, em relação à fé, ao sexo, ao amor e ao grau de instrução. Estas provas são substanciais e demonstram que conjunto de qualidades afetivas e o domínio racional do homem, não estão no coração.
Suas recordações e seus planos; seu talento para criar certas coisas e sua inabilidade para outras; suas paixões, seu amor e sua fé. Enfim, tudo que você possa imaginar e agir recebe o comando do cérebro. Este é o órgão supremo do homem. Não tem explicação a causa por que a religião escolheu o coração como o altar sagrado da fé, e por qual razão, também o homem elegeu este órgão como a eterna fonte do amor. Pois inexiste qualquer probabilidade de comprobação científica dessas idéias.
A sensibilidade, a fé e o discernimento da razão, características marcantes da afetividade humana, por vezes, até parece mesmo emergir das ritmias cardíacas, por causa das constantes mutações em seus batimentos. Talvez seja esse comportamento que caracteriza a simbologia universal de que o coração tem sentimentos. Quando, na verdade, este órgão é imprescindível na finalidade única de distribuir sangue que conduz a seiva que alimenta o corpo, dando-lhe dinamismo e sustentação. Todavia, não havendo contestação do misticismo que o envolve, não há necessidade alguma de justificativa. Assim, o coração permanecerá para sempre, o fiel representante da fé, do amor e da razão. Embora este conceito seja bíblico e universal, não se pode acreditar piamente que o coração seja capaz de tanto.
Os homens a quem Deus confiou a fé, colocaram o coração numa posição de comando central da razão humana. É como se fosse possível extrair dele conclusões sentimentais. Mais na verdade, os males e as virtudes, características que continuem o padrão do comportamento humano estão na intelectualidade e não no coração. É possível a existência de uma parceria do cérebro com o coração ligado por uma lei divina não perceptível para ciência. Porque o coração no sentido espiritual pode não ser somente aquele músculo de carne que imaginamos, mas o homem como um todo.
Certa vez Jesus questionou: ''Porque sobe tais pensamentos ao vosso coração? (Luc. 24:38) E por que o Mestre falou em subir os pensamentos, se o coração não está na cabeça? Talvez para conscientizar-nos de que o coração que ama, que odeia ou faz uso da razão não é só o pequeno órgão dentro do peito, mas um coração que representa a somatória do corpo, do espírito e da intelectualidade''.
Se não acreditarmos assim, como seria o romantismo? É bonito, ouvir ou dizer: ''Eu te amo de todo o coração''. Ainda que o coração nunca tivesse aprendido a amar. Existe na verdade, um simbolismo que se perpetua no tempo e, assim, o coração passará para a eternidade como símbolo do eterno cupido. Como seria uma declaração de amor, atribuindo ao cérebro estes sentimentos?
Há uma conscientização de que essa imensurável dedicação ao coração é um simbolismo de aceitação universal, não há, portanto, como rejeitá-lo. As razões místicas da fé e da ciência devem ser compreendidas e não comparadas. Os mistérios do coração, ainda que recheados de alegorias, devem ser aceitos como reais harmanizando-se a fé e a ciência. Que o coração continue para sempre sendo o templo de inspiração, do amor e da fé.
NELSON ARAÚJO DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina

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