Basta ler os jornais. Sobretudo em editoriais e artigos bem elaborados, estampa-se a situação e a análise das prefeituras, a grande maioria em situação de calamidade por conta do desgoverno, da corrupção e da incompetência que se acumularam através de gestões equivocadas e perdulárias, atributos que não faltam, diga-se de passagem, às Câmaras Municipais.
Esta triste realidade demonstra que nossas mazelas não vêm de fora, como muitos pensam. Não é o FMI que nos infelicita, nem o sucesso norte-americano é o responsável pela miséria ainda existente no Brasil. Tampouco se pode atribuir ao neoliberalismo ou à globalização a manutenção de nossa sociedade desigual. A ampla base de pobreza que ainda existe nesse neste País-continente é problema nosso, gerado ao longo dos séculos a partir de uma ‘‘embriogenia defeituosa’’.
Neste ponto se conclui que o que nos falta não são riquezas naturais, nem terras a perder de vista, nem clima adequado. Nosso problema principal chama-se desgoverno e as prefeituras aí estão para comprovar de forma inequívoca essa verdade. Além disso, será que já somos um povo no sentido de saber eleger seus representantes? E uma vez os tendo eleito, será que somos capazes de controlar o poder que nos controla, exercendo assim o que se chama de cidadania?
De certo modo, já houve um avanço considerável no Brasil com relação ao controle do poder público. No ano passado, a onda de moralização que varreu o País demonstrou o cansaço cívico que se apoderou de parte da população diante dos abusos cometidos pelos governos municipais. Por conta disso, grupos representativos da sociedade civil lutaram pela derrubada de prefeitos, obtendo vitórias significativas.
Depreende-se daí, que os prefeitos eleitos e reeleitos, assim como os vereadores recém-empossados, terão agora de ser mais convincentes no trato com a coisa pública diante de eleitores mais atentos e exigentes. Mesmo os partidos que antes criticavam a situação, e que galgaram o poder, terão que se precaver contra a tendência de praticar no governo aquilo que antes criticavam como oposição, algo, aliás que já está acontecendo. Enfim, o grande desafio dos atuais prefeitos se concentra em administrar as massas falidas em que as prefeituras se converteram, satisfazendo as necessidades e aspirações das populações de suas cidades sem penalizá-las com mais aumento de impostos.
Nesse sentido, não basta criar factóides nem se dedicar apenas às caridades oficiais, simpáticas, mas pouco eficientes para de fato suprir as necessidades da população mais pobre. Por exemplo, distribuir sanduíche aos sem-teto não resolve seu problema de moradia.
Diante dos rombos que os alcaides reeleitos provocaram ou ajudaram a aprofundar, e que os eleitos encontraram, tampouco convencerá a desculpa de que o prejuízo já existia, pois compete aos que o conquistaram o poder organizar as contas, pagar as dívidas e administrar a cidade. Para isso foram eleitos, já sabendo ou devendo saber de antemão o que os esperava.
Será necessário, pois, que os prefeitos e suas equipes saibam escolher prioridades para determinar como e em quê gastar. Além disso, que evitem as tentações do nepotismo, esse arraigado costume dos que governam o Brasil, mesmo que se diga que os parentes contratados são eficientes.
Privilégios devem ser banidos e quadros administrativos reajustados no tocante ao excesso de funcionalismo, mazela antiga que se prende a outro traço da nossa cultura política brasileira, o clientelismo. Quanto à corrupção, essa velha conhecida entranhada no próprio tecido social do País, deveria ser, uma vez averiguada e provada, combatida de forma exemplar através do rigoroso cumprimento da lei.
Esta descrição do que deveria e precisa ser feito há de soar utópica para muitos, que podem duvidar da possibilidade de mudanças tão radicais nos quadros dos governos municipais. Realmente falta, no Brasil de hoje, com as honrosas exceções que sempre existem, os ‘‘mil homens do Império’’, escolhidos por D. Pedro II por suas qualidades excepcionais para atuarem no Senado, no Conselho de Estado, nos Gabinetes Ministeriais, nas Presidências das Províncias, no Conselho de Sua Majestade.
Estes tipos raros foram descritos por Oliveira Vianna como ‘‘criaturas prestativas e altruístas, nutridas do sentimento do bem comum, do interesse coletivo e com a vocação expontânea de servi-lo, verdadeiras índoles rotarianas’’. E apesar desses homens de ‘‘moldagem carismática’’ serem uma ‘‘minoria diminutíssima’’, foram eles, segundo o autor de ‘‘Instituições Políticas Brasileiras’’, que construíram nossa independência, nossa unidade nacional e projetaram nossa grandeza continental.
Na extensa rede de prefeituras brasileiras por onde circula a democracia, hoje mais do que nunca seria necessária a presença de líderes que, mesmo de forma bem mais modesta, aproximassem-se da mentalidade dos chamados ‘‘homens de mil’’ do Império.
Será que conseguimos eleger alguém, que mesmo de maneira pálida se aproxima daquelas individualidades excepcionais do passado? Afinal, hoje vivemos numa república onde, ao invés da escolha e nomeação do imperador somos nós enquanto sociedade civil, que de forma democrática escolhemos nossos representantes através do voto universal.
Acrescente-se, ainda, que esse indivíduo dotado de espírito público jamais poderia ser o romântico que acaba fracassando por não ter correspondência real com o ingrato e perigoso meio com que interage, mas teria de adicionar à sua preocupação de ‘‘morrer pobre e de mãos limpas’’, o tino administrativo que vem acompanhado da competência modernizada para dirigir os destinos de uma cidade por quatro anos.
Será que não se fazem mais ‘‘homens de mil’’ como antigamente? Seja como for, se eles não existirem competirá a nós, enquanto cidadãos, moldá-los nesse novo contexto do século 21. E para isso é preciso, em primeiro lugar, ficar de olhos nos prefeitos de nossas cidades.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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