Em sociedades como as que existem na América Latina, deve haver uma preocupação constante com o desenvolvimento. Só assim se dará o processo que culminará com o progresso econômico e social de todos, e não apenas de determinados grupos ou setores. Naturalmente, isto não significa a busca da utopia socialista da igualdade de classes, mas o exercício da verdadeira democracia que pressupõe a igualdade de oportunidades para diferentes classes, e que se dá inicialmente com o acesso à saúde, à educação e ao trabalho. Além do mais, para que o desenvolvimento ocorra, é necessário uma mudança cultural que favoreça a criatividade e a vontade de vencer.
No seu livro ‘‘Subdesenvolvimento é um Estado de Espírito’’, o norte-americano Lawrence E. Harrison, que acredita na criatividade e na inovação como elementos-chave, tanto para o progresso econômico quanto social, aponta sete modos de uma sociedade encorajar a capacidade criativa humana: ‘‘1. Através da criação de um ambiente em que as pessoas esperem e recebem um tratamento justo. 2. Através de um sistema educacional efetivo e acessível: que proporcione uma base intelectual e ferramentas vocacionais, estimule a curiosidade, as faculdades críticas, a discordância e a criatividade; e que equipe as pessoas para resolverem problemas. 3. Através de um sistema de saúde que proteja as pessoas das doenças que debilitam e matam. 4. Através da criação de um ambiente que encoraje a experimentação e a crítica (que frequentemente se encontra na raiz da experimentação). 5. Através da criação de um ambiente que ajude as pessoas tanto a descobrirem seus talentos e interesses quanto a aproveitá-los nos empregos adequados. 6. Através de um sistema de incentivos que recompense o mérito e as realizações (e, ao contrário, desencoraje o nepotismo e o ‘‘pistolão’’). 7. Através da criação de um ambiente de estabilidade e continuidade que torne possível planejar o futuro com confiança. O progresso é imensamente mais difícil com a instabilidade e descontinuidade’’.
Esses modos de encorajar a criatividade não são, penso eu, funções apenas do governo, em que pese a responsabilidade deste no processo de desenvolvimento, mas de toda a sociedade. Nos Estados Unidos, por exemplo, são feitos imensos investimentos de particulares na área educacional, enquanto no Brasil são raros aqueles que investem na educação ou na arte. E apesar dos nossos avanços no conhecimento da moderna administração ou no domínio da tecnologia, de modo geral ainda exibimos em larga escala a mentalidade do lucro fácil obtido com o mínimo de esforço, do improviso que raia à irresponsabilidade, da simulação de conhecimento no lugar do verdadeiro conhecimento. Isso se dá porque nossa sociedade não estimula o mérito, não premia o talento, e é conivente com o erro e a injustiça.
Este cenário não difere muito daquele dos países da América de língua espanhola, e muitos podem achar qualquer mudança possível nesse contexto. No entanto, sempre é possível mudar quando se quer, por maiores que sejam as dificuldades. Um exemplo disso, é o magnífico projeto da Orquestra Sinfônica Nacional Infantil da Venezuela, existente há 23 anos.
Esta orquestra, não discrimina nenhuma classe social mas que é composta por uma maioria de crianças e adolescentes pobres, se apresentou em São Paulo no dia de Natal. A apresentação foi transmitida pela TV Cultura de São Paulo, e certamente encantou a quem a assistiu, não só pela alta qualidade profissional dos jovens componentes da orquestra que não deixam nada a desejar com relação aos profissionais adultos do Primeiro Mundo, como pelo alcance social da iniciativa.
Regida pelo maestro Gustavo Medina, a orquestra é o resultado da triagem feita entre os mais talentosos alunos das 160 orquestras infantis espalhadas pela Venezuela, e sobre ela falaram com orgulho e profundo amor os vários professores de música e coordenadores do projeto que também vieram ao Brasil. Segundo eles, crianças e jovens venezuelanos encontram na música a possibilidade de desenvolver seu potencial criativo e, sobretudo os mais pobres se deparam com a oportunidade de desenvolver socialmente. A música funciona também como efetivo preventivo contra drogas e marginalidade. Ao mesmo tempo, a formação musical é feita com o apoio e a amizade dos professores, que assim coroam os ideais de um projeto que é exemplo para toda a América Latina.
No Brasil, o atual governo do presidente Fernando Henrique Cardoso não poderia mudar, numa única gestão, a mentalidade formada ao longo de quinhentos anos. Entretanto, vem propiciando através do Plano Real a estabilidade econômica sem a qual não seria possível o desenvolvimento. O presidente colocou ordem no país e lançou as bases para que os brasileiros pudessem planejar o futuro com mais confiança. Agora cabe aos governos estaduais, municipais, e à toda a sociedade, usar como alavanca do desenvolvimento a vontade e a criatividade. Foi o que fizeram os meninos da Venezuela.

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