Os melhores perfis para 98
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terça-feira, 02 de dezembro de 1997
Gaudêncio Torquato 
Qual o perfil mais adequado para ser bem-sucedido na campanha eleitoral do próximo ano? A resposta carece da intuição do caçador que dispara à frente de uma ave em vôo. Ele aponta não para a ave, mas a um ponto previsto em sua trajetória. Essa aptidão, tecnicamente chamada de decalagem, permite-lhe acertar ou chegar bem perto do alvo. No caso da política, para dar respostas com pequena taxa de erro, o analista precisa saber ler o clima ambiental, interpretar os valores exigidos pela sociedade e levantar os fatores que poderão alterar o rumo das coisas. Com esta base, é possível se traçar alguns perfis e dar a resposta à pergunta inicial.
Pode-se partir da idéia de que a população está vacinada contra perfis impetuosos. A corrupção criou um antivírus. O brasileiro comum gosta de novidade, de sentir emoções novas, mas evita aventuras muito perigosas. O filtro ético, nesse caso, sugere um perfil já conhecido. O conhecimento traz o valor da experiência. Eis um ponto-chave: o candidato, principalmente no pleito majoritário, tem de demonstrar experiência, bem sucedida, é claro. Não se exige um estoque exagerado, mas algo que prove competência. Porque políticos que acumulam uma bagagem excessiva de experiências repartem sua imagem com o bolor do passado e, em certos casos, nivelam-se na mesmice da velha política. Quem tem cheiro de mofo e cara desgastada poderá ser rejeitado. O meio termo é o ideal. Portanto, nem muito velho, nem muito novo.
A maturidade é importante para projetar seriedade. Mas não é fator exclusivo. A postura jovial é algo atraente para conferir charme à política. Caem bem ao candidato o layout estético da modernidade, um visual mais solto e descomprometido, posturas mais informais e, sobretudo, comprometidas com avanços e conquistas do universo globalizado. O discurso deve deixar o palanque das generalidades e ingressar na agenda direta e simples das providências para melhorar a vida das comunidades. A macropolítica das temáticas abrangentes e universais cede lugar à micropolítica do bolso e do estômago, das necessidades do eleitorado de uma região, das vontades das famílias de um bairro, dos sentimentos dos moradores de uma rua.
O brasileiro não cultiva a improvisação como antigamente. Planeja, é mais racional. A emoção ainda é muita, mas a razão cresce na cabeça, por conta da competitividade, da falta de emprego e de opções, da restrição dos empregos públicos, da queima das mordomias, das denúncias feitas pela mídia. A lupa social confere e controla erros e mazelas. A taxa ética tem crescido. O medo e a insegurança chegam aos lugares mais bucólicos, trazidos por ondas de violência. O lazer das pessoas se torna mais programado e controlado. Os cidadãos entram no ciclo da autogestão técnica, definindo as suas metas e escolhendo os meios para alcançá-las. Emerge, a partir dessa realidade mais competitiva, um pensamento compromissado com cronogramas e programas para a melhoria de vida. Posso não ter o melhor, mas luto para não ter o pior.
Com tal lema servindo de inspiração, as pessoas vão caçando, na política, perfis que combinem com esse ideário, selecionando aqueles que falam mais diretamente ao seu mecanismo de recompensas e desejos. As linguagens inócuas, repetitivas e óbvias não fazem mais eco. Por isso, os candidatos devem se precaver contra o discurso de promessas vãs. Para chegar ao eleitor, é preciso buscar seus centros de referências, suas associações, seus círculos de integração. Quem tem coisa boa a mostrar, que o faça, sem exageros que possam desvirtuar o marketing. A clareza, a objetividade, a direção ao alvo, a credibilidade, a honestidade, a franqueza, a cordialidade, a defesa das causas comuns, a qualidade da ação política, a comunicação frequente e íntima com o eleitor, a capacidade de criar estados afetivos e, sobretudo, o compromisso para mudar estados carcomidos - eis algumas idéias-força que podem alavancar os perfis de 98. Esse pequeno roteiro servirá como passaporte. Para o céu ou para o inferno.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP).


