Os médicos e as máquinas
Os médicos
e as máquinas
Marco Antonio Fabiani
Com quantos exames se faz um diagnóstico?
A pergunta, aparentemente simplista e óbvia, pode, no entanto, ajudar a esclarecer algumas, das tantas, dificuldades enfrentadas pela medicina. Digamos que, colocada de outra maneira, ela pode ampliar as possibilidades de resposta. A pergunta poderia ser assim formulada: - Quanto de ciência precisa a arte da medicina para chegar aos seus objetivos? Entendendo aqui como objetivo - desde os tempos dos Hipócrates - compreender e aperfeiçoar a natureza dos homens, aperfeiçoamento da natureza. A resposta a essa pergunta certamente mudou tanto quanto mudou o mundo e a vida. Mas com o grande desenvolvimento tecnológico das últimas décadas respondê-la tornou-se, se não impossível, extremamente difícil.
Mistura-se problemas de toda ordem, e não cabe aqui, evidentemente, analisar todos. Mas, pelo menos dois nos saltam aos olhos com repercussões práticas no cotidiano da profissão. Um deles, de conceito e o outro econômico.
O primeiro problema é que, com o deslumbramento causado pela tecnologia no dia a dia, perdeu-se de vista a condição mais elementar da prática médica. Que é, antes de mais nada uma relação interpessoal. De pessoas que buscam ajuda de outra, cujo saber adquirido visa o alívio das suas dores, melhoria e o prolongamento da sua vida. Para os médicos hipocráticos (fonte da qual bebemos há 25 séculos e no entanto preserva incrível atualidade), diagnosticar, passava por um critério de certeza, definido pela palavra CANON, e que tal critério não podia ser um peso ou um número, mas a sensação que o médico tem examinando o corpo do enfermo. Ou como em outros escritos, o corpo do homem fala através de sinais. Havia um conceito - sobre o qual se assentava a medicina - que afirmava ser a medicina uma arte baseada em conceitos científicos e uma ciência ordenada pela arte.
A sofisticação dos equipamentos, a precisão e profundidade com que se diagnostica e trata as doenças nos dias de hoje, não mudam o fato de que exercer a medicina depende em larga medida da percepção e habilidade humana. Ela ainda são insubstituíveis.
Um segundo problema, de certa forma dependente do primeiro é econômico. Diante de um mundo que valoriza a tecnologia como um bem absoluto, no sentido de que tudo o que envolve o uso da máquina é mais perfeito que o puro uso dos sentidos, a medicina do cotidiano também, erroneamente, a meu ver, passou a intermediar seus atos com uso de aparato tecnológico - que passou a ser sinônimo de qualidade. Reduzindo assim a um simples ato técnico uma sofisticada forma de arte e ciência. É possível que nos ambientes acadêmicos as coisas possam ocorrer de modo diferente, mas fora dele, é isso que predomina. As especialidades que são principalmente clínicas, como pediatria, infectologia, dermatologia ou dependem de habilidade cirurgica como cirurgia geral, por exemplo, são as que mais sofrem devido à má remuneração de seus procedimentos. Na outra ponta, os procedimentos que envolvem uso equipamentos de alta tecnologia, principalmente os de imagem passam a se apropriar da maior parte da renda destinada a saúde. A figura emblemática da medicina deixa de ser o clínico sensível, capaz de levantar suspeitas diagnósticos impensadas, com sensibilidade social ou o cirurgião habilidoso, com alto índice de sucesso. Passou a ser, ao contrário, o médico dono do equipamento, com grande capacidade empresarial, que disputa o mercado, com capacidade empreendedora e dotado de muita ambição e agressividade. Enfim, qualidades que se espera do empresário e não do médico. O problema é que - para usar uma linguagem econômica - essa excessiva valorização do capital em detrimento do trabalho criou um monstro sem controle que vem engolindo as instituições pagadoras do serviços médicos, onerando em última instância os próprios pacientes, com exames muitas vezes desnecessários. É fácil entender a causa, uma vez que o referencial não é mais diagnosticar ou tratar, mas aumentar a produção, baixar o custo independente da necessidade clínica. E o que é pior, sem nenhuma garantia de que isso está beneficiando o conjunto dos pacientes.
Na Grécia antiga durante muito tempo comemorou-se a libertação de Prometeu, herói mítico que roubou o fogo (símbolo da ciência) dos Deuses e doou aos homens. As festas culminavam uma corrida com tochas acesas, pois só venceria quem, carregando o fogo da ciência, conseguisse correr na medida justa, não tão lento, que seria facilmente superado pelos adversários, nem tão precipitado que deixasse apegá-lo. É uma boa lição para lidarmos bem com a tecnologia.
É claro que o avanço dos equipamentos, a precisão e rapidez dos novos e modernos métodos de exames, medicamentos, monitorizações trouxeram benefícios inestimáveis à medicina, mas não se pode perder de vista de que o comando do processo é do médico, é humano e não da máquina, e muito menos do mercado.
- MARCO ANTONIO FABIANI é médico em Londrina
O colunista Luiz Geraldo Mazza está em férias





