Preocupado com os temas de mais evidência no momento, focados nos escândalos da corrupção, este Jornal tem levantado, paralelamente, também questões que tocam diretamente a vida das pessoas. Um deles o do consumo descontrolado, assunto de reportagem da última sexta-feira mostrando que o consumismo sem freios é uma doença e deve ter tratamento idêntico ao do alcoolismo e do vício das drogas. Se o consumo regular de bens é necessário – ou a produção e os negócios irão à falência – o gasto compulsivo deve ser contido, ou quem irá à bancarrota será esse consumidor desenfreado. Sob a ótica de conter a inflação, o Governo erra ao manter os juros altos de forma a dificultar o crédito, porque assim impede a saudável normalidade do consumo, mas isto não invalida o alerta sobre os que gastam além dos ganhos e que precisam controlar-se. Estourar o orçamento repetitivamente é uma compulsão e deve receber tratamento psicológico, aliado a medicação, da mesma forma que se trata um alcoólatra e um dependente químico. Uma recomendação importante é feita, no corpo da reportagem, pelo economista e professor da Universidade Filadélfia-Unifil, Ernani Lauriano Rodrigues. Ele recomenda que, cortar talão de cheques e cartão de crédito, pode ser uma alternativa para bem administrar um equilíbrio de compras, porque é óbvio que esses dois instrumentos em mãos induzem a gastar mais, e no mais dos casos desnecessariamente. Mas diz que apenas isto não é suficiente, porque há necessidade de descobrir a causa do consumismo, e a solução é um tratamento psicológico. Certo é que, se houvesse uma decisão firme de não utilizar nem talão de cheques e nem cartão, mas dinheiro vivo, a tendência para os gastos supérfluos seria contida acentuadamente, com ganhos de vantagem pela ausência dos juros, por si mesmos capazes de desestabilizar qualquer orçamento. Natural que não se pode perder de vista que, sem consumo, não há produção que se sustente, e, sem esta, cai a oferta de empregos e cai o recolhimentos de impostos, ocasionando um estancamento da economia. Mas isto é diferente da excessiva facilitação, que pode resultar em desestabilização e inadimplência, prejudicando também o que vende. De imediato, a prática de fazer um experimento sem o talão de cheques e sem o cartão de crédito é uma louvável providência – e muitos já o fazem – porque, se a nação não anda sem consumo, também não deseja ter uma legião de inadimplentes, porque os resultados disto são igualmente nefastos. A política acertada é um regime de pleno emprego, de salários condizentes e de gastos compatíveis, sem contenção mesquinha e nem obsessão por guardar na poupança e deixar de comprar o que é preciso.

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