O mal dos delitos humanos não reside apenas neles próprios, mas na onda de ira e revolta que semeiam. Se forem os denominados crimes hediondos, como os de que agora é acusado este que a imprensa convencionou chamar de ‘‘maníaco do parque’’, a ira popular então se alastra e envenena as mentes.
Vivemos estes difíceis momentos, no Brasil. Não bastasse o mal em si próprio, os veículos de comunicação perdem as medidas e não economizam espaços para fotos e manchetes, recheando os textos com informações e suposições, depoimentos da mãe do acusado, do pai, dos irmãos, dos familiares das vítimas, submetendo-os a massacrante tortura e adicionando a tudo os ingredientes do espetáculo.
É um ‘‘bom assunto’’, na linguagem jornalística. Carros-chefes dos noticiários e tranquilidade para os editores, que têm boa matéria para sustentar pelos menos duas semanas de chamadas de primeira página e manchetes das páginas policiais. E eu aqui, também, falando do assunto... Não faltam temas melhores, mais ‘‘lights’’, mas quero me ocupar disto, porque é preciso.
A imprensa deveria respeitar a dor dessas famílias. Nestes momentos amargos para elas, é fácil arrancar-lhes palavras de revolta e de inconformismo e manifestações de vingança.
Tudo isto gera uma onda muito maléfica para todos, os diretamente envolvidos e os que lêem e vêem as imagens pela televisão. Esta corrente que se dissemina não ajudará a mais ninguém, porque os fatos já estão consumados. Entra em cena a Justiça. Ela se basta. É o instrumento que temos.
Os anseios de vingança, com requintes de crueldade, se assemelham muito aos delitos cometidos pelo acusado, então seremos iguais a ele?! Se nestas horas defendemos fazer justiça pelas próprias mãos, teríamos que fechar os tribunais. Estaria implantada a anarquia e passaria a prevalecer a lei dos voluntários da ira. Os homens passariam a auto-executar-se e a paz social deixaria de existir. Regrediríamos à era do barbarismo.
Isolar do meio social aqueles que praticam crimes contra o cidadão e contra o meio é uma obrigação das sociedades civilizadas, e para isto existem os procedimentos legais, mas nunca, em caso nenhum, deve prevalecer o sentimento de vingança, porque este é um veneno que nos corrói e nos aniquila, junto com as vítimas.
É muito difícil ficar indiferente diante de episódios como este, que machucam a todas as pessoas sensíveis, mas temos que fazer um esforço sobre-humano para não deixar que se fermentem em nós os desejos de revide, na base do olho por olho e dente por dente, porque os novos prejudicados, a esta altura, seremos nós mesmos. Temos que nos poupar destas iras. Uma boa prática é nos solidarizarmos mentalmente com as famílias das vítimas ao invés de ficarmos amplificando os sentimentos de vingança.
Fatos tão tristes como este são uma provação para todos nós. Se semeamos ira e ódio, estimulando idéias de vingança, criamos uma tal atmosfera que dela vicejarão novos ‘‘maníacos do parque’’, iguais ou mais virulentos. Essa corrente negativa se alastra e tem um vigoroso poder de criação e corrosão.
Não sabe a imprensa o mal que semeia com tanto estardalhaço em cima dos descaminhos humanos; não sabem as pessoas quanto mal disseminam ao manifestar sentimentos de ódio e formular sugestões de como torturar o acusado, para que sofra muito. Está aí escrito nos jornais. Cruel bastou ele, ao cometer os atos que lhe são imputados. Que não sejamos iguais. Porque nos consideramos a parte sã da sociedade, não é isto?
Estes são momentos para reflexão e oração, não para clamar por justiça, porque ao clamá-la lançamos descrença no poder legalmente constituído para fazê-la. A hora é de expandirmos luz e sentimentos de paz para as famílias dessas infortunadas vítimas, porque é disto que elas precisam agora. Nada mais lhes servirá. Isto é que é ser solidário. Orar também pelo acusado, para que alcance a compreensão. Fazer isto é a parte mais difícil.
Quando este homem fere um dos nossos, fere a nós todos; e quando destilamos sentimentos de ódio e vingança, nos ferimos muito mais. Temos que orar por nós mesmos em situações como esta, para que não nos escape a serenidade; para que essa onda vibratória negativa não se intensifique; para que não se ofusque em nossos corações a chama do amor maior, que a tudo deve presidir.
Ao invés de emanações de vingança, gastaremos a mesma energia desejando que se estabeleçam a harmonia e a paz, e os resultados serão muito benéficos para os familiares das vítimas, para elas próprias e para nós mesmos.
Tudo já está entregue em boas mãos. Se a imprensa divulga com excessivo sensacionalismo, comecemos por deixar de ler, para que menor seja o contágio e menor seja o dano; se a televisão faz o espetáculo, com todos os adornos das luzes e cores, fechemos os olhos e os ouvidos. Nenhum de nós precisa dessa carga de informação. A justiça se fará independente de nossas manifestações de ira e de nossas sugestões de punição.
Se não foi possível salvar do sofrimento e da dor as vítimas e suas famílias, incumbe-nos orar por elas, para que encontrem alívio e para que também nós nos aliviemos. Esta é a melhor forma de fazer justiça.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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