Os limites do conflito
Os limites do conflito
Maria Lucia Victor Barbosa
Meus últimos artigos sobre o MST têm trazido à tona opiniões de leitores de diversos pensamentos, o que é bastante salutar do ponto de vista da liberdade de expressão. Isto significa ao mesmo tempo que o tema é importante porque interfere com a vida das pessoas, mesmo que elas não sejam diretamente afetadas pelas ações de um movimento que começou com característica social ligada à busca de trabalho na terra e que, através da orientação de seus mentores descambou para o caminho da violência através do figurino marxista da revolução socialista.
Esta afirmação não me pertence, mas foi divulgada na própria imprensa através do texto-base oficial intitulado Lições Históricas da Luta sobre a Reforma Agrária no Brasil, que serviu de orientação ao Curso de Capacitação de Militantes de Base do Cone Sul, promovido e ministrado pelo MST e pela Coordenadoria Latino-Americana de Organizações do Campo (CLOC), no início de maio de 1999.
Neste texto constam várias idéias entre as quais as seguintes: O MST se empenha para que as organizações sociais e políticas de esquerda retomem o trabalho de formação de militantes, com uma nova concepção: a de que é possível implantar o socialismo no Brasil; A reforma agrária ganhou outra dimensão e já não deve ser feita por razões econômicas como no passado e, sim, por razões políticas ou, se quisermos, por razões ideológicas; Apenas ocupar a terra para trabalhar é uma posição já superada; esta posição se esgotou na luta pela conquista da terra vivenciada pelo MST na década passada.
Desse modo, o MST tenta reconstruir a mística perdida nos escombros do Muro de Berlim e ressuscitar o mito do bom revolucionário tão caro à América Latina e, ao mesmo tempo, tão desastroso para seus povos.
Esta mística afeta de modo mais intenso a classe intelectual e, por conseguinte, as universidades, onde jovens recebem à guisa de educação uma doutrinação marxista de cunho dogmático e confessional que acaba lhes tolhendo por completo a visão da realidade.
Exemplo disso apareceu de forma inequívoca através das críticas que recebi de um estudante. Baseado em conceitos marxistas ele confunde liberalismo com pensamento único, enunciado que em si é um contra-senso, e que denota completo desconhecimento do que significam as idéias liberais. Sobre este estudante manifestou-se um dos meus leitores, levando a discussão para uma interessante avaliação de certos meios universitários.
Por isso, creio que vale a pena reproduzir alguns trechos de sua mensagem: O que mais me chamou a atenção foi o fato de um estudante universitário, em pleno ano 2000, tratar de categorias marxistas como se fossem uma Bíblia! Na Europa, nos centros acadêmicos mais respeitados, quando um pesquisador ensaia se apoiar nas teses de Marx, seus orientadores lhe perguntam se ele ainda é marxista. Não que Marx não tenha importância. Teve, e tem muita. Porém, obviamente dentro do seu respectivo contexto histórico. Mas falar em luta de classes, em burguesia, quando o Muro de Berlim caiu porque o povo o derrubou, e porque estava totalmente oco, é quase um dado de curiosidade científica. Insistir na divisão entre bem e mal, na qual o mal é sempre burguês... De minha parte, sei que isso se deve aos nichos universitários onde se aninharam os órfãos da falecida URSS, grupos ou grupelhos de professores que realizam, às vezes, uma verdadeira patrulha ideológica, angustiando os resistentes e robotizando os condescendentes.
Os jovens que estão sendo formados pela cartilha marxista são sérios candidatos à alienação, pois sairão da universidade direto para o mundo que, queiramos ou não, caminha a passos largos rumo à globalização (não essa globalização dos conflitos econômicos, estágio inicial, eu diria, de um amplo relacionamento internacional, transcultural, solidário e fraterno que se aproxima). Esses jovens estão com a cabeça no século 19!
Fazendo minhas as palavras desse leitor, concluo esse artigo afirmando que, se os conflitos sociais entre classes continuam existindo como no passado, hoje a violência e os gritos revolucionários foram substituídos, em grande parte, por formas mais ordenadas de discussão entre as classes. E se o eterno conflito entre dominados e dominadores caracteriza a sociedade humana, hoje existem instâncias onde as diferenças podem ser resolvidas, como sistemas eleitorais e de justiça.
Finalmente, reafirmo, em consonância com o pensamento liberal, que com todas suas falhas o processo democrático ainda é o melhor para regular conflitos com o mínimo de custo. E isso é um avanço considerável diante do totalitarismo comunista onde era impossível discutir ou mesmo argumentar diante dos funcionários do Estado e do Partido. O resto, como diria George Orwell, é duplipensar.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora e professora universitária em Londrina
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