O procedimento do embaixador dos Estados Unidos na ONU, Bill Richardson, quanto às consultas aos membros não-permanentes do Conselho de Segurança daquela organização, sobre o ataque ao Iraque, pode ter cumprido a pragmática da diplomacia mas traz problemas para o Brasil, um dos países consultados pelo diplomata americano. As consultas foram públicas, e logo se revelaram as posições dos consultados. Assim, o apoio brasileiro aos EUA talvez crie área de atrito não só com o governo ditatorial de Saddam Hussein, mas no próprio mundo árabe.
O curioso, no episódio, é que, até agora, só a Inglaterra - além dos EUA, ambos membros permanentes do Conselho de Segurança - o Canadá e a Alemanha aprovaram a expedição militar contra o Iraque. Outros membros desse conselho - a Rússia, a China e a França - preferem fazer gestões diplomáticas contra a ação militar. O mais importante aliado dos EUA na região, a Arábia Saudita, opôs-se ao desembarque de marines em Bagdá, operação que seria iminente.
Terá o governo brasileiro agido com precipitação nesse episódio? Aparentemente, não. Diz-se que o emissário dos EUA, principal interessado no assunto, no afã de obter o apoio dos países sem assento permanente no conselho, forçou a mão, assegurando o voto brasileiro a favor do ataque militar a Bagdá.
O Brasil condiciona essa intervenção à hipótese de resultarem inúteis os entendimentos com a Iraque. Segundo os EUA, as autoridades iraquianas estariam tentando ganhar tempo ao pedir novo prazo, antes de autorizar a inspeção incondicional em busca de armas nucleares ou biológicas naquele país, conforme quer a ONU. Mas, ao admitir, sem provas concretas, que suas suspeitas são procedentes, os EUA - por intermédio da secretária de Estado, Madeleine Albright - atropelam e prejulgam as negociações que as autoridades brasileiras queriam ver realizadas até à exaustão.
Dessa armadilha em que entrou, será difícil o Brasil sair sem arranhões duradouros, especialmente com o mundo árabe, um de nossos bons parceiros comerciais e principal fornecedor de petróleo. Isso no plano internacional. Internamente, o governo Fernando Henrique Cardoso talvez venha a contabilizar outro prejuízo, ao tomar a decisão que se anunciou, contra o Iraque: a possível reação da imensa colônia de origem árabe no Brasil. Tal colônia, em geral, não nutre, entre nós, como sucede noutros países, qualquer sentimento antiamericano. Mas o tom ameaçador e arrogante da sra. Albright e do subsecretário de defesa dos EUA, Bill Aronson, não deixam de fazer mau juízo da inteligência de parte dessa colônia aqui radicada, até então alheia à crise crônica na região da qual procede. E há outro problema: sem ouvir o Congresso, em consulta prévia e informal, podia FHC aceitar a proposta americana, que, em tese, não descarta a perspectiva de remessa de tropas ao Iraque? É confiar muito na maioria governista, em ano de eleições. Afinal, o Congresso e FHC juraram defender a solução pacífica de controvérsias internacionais. Pode ser outra jura esquecida.

mockup