O processo político é, desde sempre, um jogo de entretons e ambiguidades. Getúlio Vargas gabava-se de não possuir inimigos que não pudesse transformar em amigos - e vice-versa. Provou isso numerosas vezes. Em 1945, por exemplo, mandou tirar da prisão o líder comunista Luiz Carlos Prestes, para selar uma aliança política em torno de sua continuidade (dele, Getúlio) no poder.
Prestes havia sido trancafiado por Vargas dez anos antes, em condições subumanas, que fizeram com que seu advogado, Sobral Pinto, invocasse em sua defesa nada menos que a lei de proteção aos animais. Vargas deportara para a Alemanha nazista a mulher de Prestes, Olga Benário, grávida, sabendo que, como judia, não teria chances de sobreviver. Morreu num campo de concentração. Detalhes.
Prestes saiu da prisão para o palanque, engajado na campanha que ficou conhecida por ‘‘Queremismo’’, que consistia em defender a convocação de uma Constituinte com Getúlio. A campanha fracassou, o que é outra história. Mas Prestes e Getúlio continuaram aliados até o fim. A isso, sem maiores concessões a sentimentos pequeno-burgueses como a emoção, chamou-se de molejo dialético, pragmatismo responsável e coisas do gênero. Em política, tudo é possível, repetem os políticos, e selam as mais surpreendentes alianças.
O prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, do PPB, dentro dessa clássica tradição, aliou-se simultaneamente ao PT e ao senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Enquanto em São Paulo seu candidato, Celso Pitta, duela com os petistas, no plano nacional Maluf pilota interessante aliança com o partido de Lula, contra a reeleição.
Paralelamente, Maluf apóia a candidatura de Antonio Carlos Magalhães à presidência do Senado e declara sem o mais remoto constrangimento: ‘‘Somos irmãos gêmeos na política’’. Interessante notar que foi exatamente ACM quem, em 1984, no auge da disputa entre Paulo Maluf e Tancredo Neves pela Presidência da República, detonou a derrota do hoje prefeito de São Paulo. Disse, na ocasião, mais ou menos o seguinte: ‘‘Não apóio candidatos corruptos’’.
Maluf entrou na Justiça contra ACM, mas nada conseguiu. E foi por ele chamado de corrupto numerosas outras vezes. De tal modo aquela acusação pesou na derrota de Maluf que ACM tornou-se, por algum tempo, uma espécie de herói das esquerdas, chamado carinhosamente de ‘‘Toninho Ternura’’, em oposição ao epíteto que o acompanha há anos: ‘‘Toninho Malvadeza’’.
Águas passadas. O que está em jogo é a luta pelo poder. Tanto ACM como Maluf municiam-se para negociar a reeleição e garantir lugar de destaque no futuro. ACM quer a presidência do Senado; Maluf, a Presidência da República ou o governo paulista. O PT cumpre papel de oposição: investe nas contradições da base governista, ainda que por meio de alianças contraditórias. Tudo muito simples, claro.

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