O fumo é por todas as formas um dos mais perigosos agentes contra a saúde, desde o cultivo até o consumo; e pior, envolvendo crianças na colheita. Falar do malefício do tabaco é sempre necessário, mesmo que todos saibam disso, mas estarrece a denúncia publicada ontem neste Jornal de que no Paraná 68 mil crianças ajudam os adultos nas lavouras de fumo - mais presentes nos municípios de Irati, Ponta Grossa e Curitiba. O cultivo dessa planta oleosa exige uso intensivo de agrotóxico, gerando nos trabalhadores problemas como intoxicação, câncer do pulmão e dores de coluna.
O organismo frágil dos menores é o mais atingido. E em cima de um mal ocorre também a sordidez do regime contratual das indústrias do cigarro com os fumicultores, porque segundo a procuradora do Ministério Público do Trabalho, Margaret Matos de Carvalho, os que não atingem as metas de produção exigidas são punidos com multas, em forma de menos ganho. Isto é uma forma de escravidão, ocorrendo em pleno Paraná.
Os jornais têm até dificuldade em destacar em suas manchetes o ponto mais crítico dentre os que cercam o sinistro universo do tabaco. No início do processo, que é o plantio e a colheita, os que lidam com a atividade já esbarram na inalação do agrotóxico; áreas plantadas de fumo poderiam estar produzindo alimentos; o consumo do cigarro, cigarrete, charuto e mesmo cachimbo é um veneno para o organismo dos fumantes e dos circunstantes, porque estes acabam ''fumando'' indiretamente; a utilização de crianças nesse processo agrícola as expõem a males de saúde, porque o agrotóxico ataca-lhes o sistema nervoso central; e mais: gera evasão escolar e baixo aproveitamento no ensino; muitas delas são subnutridas e já sofrem de lesão por esforço repetitivo. Se tudo isso não bastasse, há a exploração citada dos fabricantes sobre os fumicultores. As indústrias produtoras de cigarro e afins costumam financiar os produtores por interesse mútuo.
O cultivo do fumo é rentável, apesar dos muitos males paralelos que essa planta provoca desde a lavoura até o destino final, que é o beneficiamento e o consumo, gerador de doenças pulmonares graves e que resultam (além do sofrimento das vítimas) em elevado custo social para tratá-las. De um lado, o poder incontrolável dos viciados, que querem fumar a qualquer custo mesmo sob o risco de doença e morte - mais parecendo uma prática suicida - e de outro o Governo arrecadando fortunas com o alto imposto sobre os derivados do tabaco.
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