Os produtores de trigo desejam andar com as próprias pernas, sem paternalismos e favores, mas precisam de regras governamentais bem definidas para comercialização das safras. Esta foi uma das questões apontadas sexta-feira no debate sobre o futuro do trigo no Paraná, promovido pela Folha Rural, com o apoio do Sindicato Rural de Londrina e do Sindicato das Indústrias de Panificação e de Confeitaria do Norte do Paraná, e a presença de representantes de cooperativas agrícolas, FAEP, Associação das Bolsas de Mercadorias, Banco do Brasil e pesquisadores do Iapar e da Embrapa. O que ocorre com o trigo vale para toda a gama de produtos do campo, porque o governo não tem políticas claras e consistentes para este que é o mais importante segmento produtivo do País – o rural – ademais grande gerador de empregos e de benefícios no geral. No caso específico do trigo, os produtores articulam uma grande manifestação de protesto para 16 de dezembro, com o bloqueio das portas de agências bancárias por colheitadeiras e tratores, como forma de chamar a atenção do governo para definições. O que ocorre é que o mercado não dá garantia de preço mínimo, pois hoje a saca está em R$ 21,12, quando o cálculo do custo de produção para 2005 é de R$ 23,86/saca para uma produtividade de 100 sacas/alqueire. O que deve ser evitado é um desânimo no setor, com o abandono dessa cultura pelo produtor, o que seria danoso para a economia do País. As lideranças do MST imaginam que o produtor rural é um privilegiado, mas a verdade é que a coisa não é assim e, no caso dos triticultores, eles ‘‘estão com a corda no pescoço’’, no dizer de Rafael Figueiredo, representante do Sindicato Rural de Londrina. O setor é eficiente, mas sempre enfrentou a concorrência do trigo argentino, que entra por preço mais baixo. O governo despreza o problema, pois lhe falta vontade política quando se trata de defender questões da classe rural, parecendo que tem prevenção contra ela. Isto vem desde os tempos em que os cafeicultores do Paraná promoveram a célebre Marcha da Produção, para protestar contra a política governamental da época para o setor. Uma queda de produção de trigo, pelo desestímulo, seria danosa para a economia brasileira, que precisaria investir mais divisas com a importação do produto e geraria retração e crise no setor. Hoje o Brasil só produz 6 milhões de toneladas de trigo/ano e consome 10 milhões, uma defasagem que se agravará se não houver uma política de proteção para a triticultura nacional. O Paraná, maior produtor, é responsável por metade da safra nacional do cereal – ou 3 milhões de toneladas, e com qualidade superior ao trigo argentino em teor de glúten. Foi defendido durante o debate que a capacidade produtiva brasileira é de 13 milhões de toneladas, significando que isto atenderia à demanda interna, com sobra para exportação. Uma das reivindicações, entre tantas, é que o governo autorize a participação de navios de diferentes bandeiras no transporte do trigo de porto a porto, porque os atuais são insuficientes, ocorrendo que, daquelas 3 milhões de toneladas, foi comercializado apenas um terço. Faltam políticas públicas e verba para financiar a comercialização e destravar grande parte da safra de 2004 – este também um pleito da Associação Brasileira da Indústria do Trigo – e tais políticas são importantes para agilizar o processo da cadeia produtiva, no setor do trigo como em todos os demais. Porque, se o governo tem ajudado pouco, na verdade atrapalha bastante ao se interpor como entrave, quando deveria ser o maior interessado no incentivo à cadeia produtiva rural e o seu maior defensor, até porque isso realçaria o desempenho governamental e lhe renderia dividendos políticos. Mas nem essa sábia política o governo consegue desempenhar.

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