Nos países onde sempre se admitiu a reeleição, como Estados Unidos e França, dentre outros, historicamente, os presidentes têm aproveitado o primeiro mandato para arrumar a casa, reservando para o segundo as propostas constantes do programa de governo, que, em geral, coincidem com o ideário dos partidos aos quais pertencem. Esta também acredito que seja hoje a expectativa de todos os brasileiros, tenham eles votado em FHC ou não. Se isso, por qualquer motivo, não vier a acontecer, a frustração decorrente será traumática para toda a Nação.
De fato, FHC é o único presidente reeleito em nossa história republicana. Ou seja, nenhum outro líder político brasileiro teve a seu favor tamanho crédito de confiança dado pelo eleitorado. Nem Getúlio Vargas, o ‘‘Geg꒒, o ‘‘pai dos pobres’’, como era chamado na intimidade pelo cidadão comum, o mais popular de todos os homens públicos brasileiros, mereceu tal confiança. Nem mesmo o simpático Juscelino, o ‘‘Nonô’’, o presidente bossa-nova, que governava o País entre um vôo e outro do Rio de Janeiro para o Plano Piloto daquilo que viria a ser Brasília.
De Getúlio, FHC parece ter herdado a capacidade de contrariar interesses, característica exclusiva dos grandes estadistas; de Juscelino, o prazer de governar. Ora, com tais atributos, será mesmo uma grande pena se os próximos quatro anos do seu segundo mandato forem dedicados apenas à conclusão das reformas constitucionais e ao apaziguamento das eternas querelas dos aliados do governo. Isso é necessário, pois faz parte do ato de governar. Mas é pouco para um homem tão bem preparado.
FHC não se contentará com tão pouco. Ele, com certeza, superadas as divergências internas entre os aliados e destes com a oposição, exigirá muito mais de sua equipe de ministros e de colaboradores e de si próprio. É claro que nesse esforço de superação, o presidente reencontrar-se-á com os ideais partidários que inspiraram a criação do PSDB. E neles não há espaço para o desemprego, a recessão, a desestruturação do setor produtivo, a miséria, a fome e a exclusão social.
Evidentemente, não será tarefa fácil o resgate de tais valores. Mas estou convencido de que ele não vai desistir da empreitada. Acredito que este ano será ainda um período de gerenciar conflitos, de superar divergências e de concluir o ajuste fiscal e as demais reformas constitucionais necessárias à governabilidade (tributária e fiscal, política, administrativa, das relações entre capital e trabalho e do Judiciário), Mas, depois disso, virá a oportunidade de retomar o desenvolvimento, em bases gerenciais e tecnológicas mais modernas, com o setor produtivo em condições de competir em pé de igualdade com a concorrência estrangeira.
O século 20 marcou o encontro do Brasil com a industrialização tardia e, portanto, repleta de problemas de toda a ordem, principalmente sociais. No próximo século, do qual já estamos no limiar, o País terá o compromisso moral e inadiável de resgatar a cidadania de sua sofrida população. Daqui para a frente, não se tratará mais de crescer a qualquer custo, mesmo nas crises. Será necessário mobilizar a sociedade para melhorar a qualidade de vida do brasileiro, dando-lhe emprego, renda, educação, saúde, habitação e lazer. A propósito, vale a pena lembrar talvez o que tenha sido o derradeiro e profético conselho, dado pelo ex-coordenador político e ex-ministro das Comunicações de FHC, Sérgio Motta: ‘‘Não se apequene, presidente!’’
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).

mockup