Os homens do presidente
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de agosto de 2000
Vergílio Mariano de Lima 
A cada dia que passa, a cada fato novo, a cada edição dos jornais, custa-nos acreditar na completa inocência do presidente FHC com relação aos escândalos envolvendo o Palácio do Planalto. É claro que qualquer notícia de envolvimento do presidente em ilícitos administrativos se constitui em grave fator de risco institucional, mas, por outro lado, o regime democrático dá à Nação brasileira o direito de ser informada e de se insurgir contra esses acontecimentos que envolvem o Palácio do Planalto. Aliás, nos Estados democráticos a derrubada de governos corruptos deve ser encarada como consequência da democracia. Foi assim com Collor. Nas ditaduras é que isto seria estranho.
Fernando Henrique, até agora, diz-se inocente ou alheio a tudo isto que vem acontecendo. Será? Quem acredita?
A operação de socorro aos bancos Marka e FonteCindam causou ao País e a nós todos um prejuízo de R$ 1,5 bilhão. Até agora, tanto FHC quanto o ministro Pedro Malan diziam não ter participado da operação. O noticiário diz, no entanto, que o presidente e o ministro reuniram-se com Chico Lopes em almoço em que o assunto foi tratado. A pretexto de se evitar uma crise no sistema financeiro, decidiu-se por socorrer aquelas instituições sabidamente inexpressivas dentro do mercado financeiro nacional. Na verdade, salvaram-se pessoas ou empresas, pois não havia, segundo se informa atualmente, qualquer risco de terremoto na economia brasileira.
A grana que saía do governo para as obras do Tribunal Regional Trabalhista (TRT) de São Paulo, pelos papéis, mas que caía nos bolsos do chefe da gangue Nicolau-Lalau, tinha a participação do secretário direto de FHC, Eduardo Jorge. E o presidente de nada sabia. Nem o Congresso, que aprovou suplementação nas verbas do TRT-SP, proposta pelo próprio presidente.
Ora, como não sabiam da mutreta, se o Tribunal de Contas da União já alertara os órgãos do governo e do Congresso sobre o superfaturamento e outras irregularidades naquela megaobra?
Aliás, esse Eduardo Jorge era e deve continuar sendo amigão de Luiz Estevão, que era amigo de Collor. FHC apoiou as candidaturas de Luiz Estevão ao Senado e de Joaquim Roriz ao governo do Distrito Federal, por conta de pressões de Eduardo Jorge. FHC chegou a dizer que não tinha intimidade com Eduardo Jorge, seu principal assessor desde que era senador. E nós temos que acreditar nisso.
Outro dia, em artigo, Carlos Heitor Cony, que dizia ter sempre acreditado na honestidade pessoal de Fernando Henrique, levantou sérias suspeitas contra o presidente. Disse ele: Ou o presidente foi traído por eles ou foi com eles solidário, ficando em aberto o grau dessa solidariedade, que poderia fazer dele um beneficiário.
A cadeia de influência de Eduardo Jorge nos negócios envolvendo o governo é algo assustador, passando pelos bilionários fundos de pensão, ao socorro de empresas, como a falida Encol. Nos fundos de pensão, EJ (o PC de FHC) apadrinhava a nomeação de diretores e através deles exercia o poder sobre a administração de R$ 47 bilhões. Segundo disse EJ, os problemas dos fundos de pensão passavam por ele para que FHC pudesse manter-se informado.
Ninguém pode negar que Eduardo Jorge era o braço direito de Fernando Henrique. Não é possível alguém supor que o homem da sua ante-sala fazia tudo isto sem o conhecimento do chefe.
Infelizmente, o governo está em maus lençóis e nós, pobres mortais, debaixo dele. Todos nós, brasileiros, torcemos para que FHC não tenha nada a ver com todos esses escândalos e, muito menos e acima de tudo, que tenha sido, entre tantos, um dos seus beneficiários.
Sinceramente, torço contra a premonição do experiente e ultrabem informado jornalista Carlos Heitor Cony. Para o Brasil, é preferível que Fernando Henrique seja, como nós, uma vítima.
O que é certo, é que PC Farias fez escola. Agora, aprimorada. Espero que não se diga a mesma coisa da sugestiva Casa da Dinda. Ela poderá ser esquecida ou, no mínimo, subestimada.
- VERGÍLIO MARIANO DE LIMA é advogado em Toledo


