Os hispanos dos Estados Unidos, seja qual for o método usado para contabilizá-los, são uma força demográfica, econômica e política em ascensão. As estatísticas indicam que um em cada nove habitantes dos EUA é hispano (mais de 31 milhões, mais de 11% da população). O certo é que hoje o poder aquisitivo dos que, de uma forma ou de outra, têm suas raízes no mundo ibero-americano chega a US$ 400 bilhões, quantia respeitável que se traduz em uma suculenta fonte de impostos e tributos de todo tipo, já que, se o dinheiro ilegal circula em todas as comunidades, o fato de a maioria dos hispanos ser de assalariados legais constitui um fiel pilar do fisco.
No entanto, uma regra de ouro da mitologia norte-americana não se aplica a eles, pois os impostos não se traduzem em representação. Sua presença nos escalões superiores do governo é baixíssima. Há somente 20 congressistas hispanos (num total de 435). Não existe um único senador hispano. Quando aparecem hispanos nos gabinetes, alguns deles podem apresentar tanto raízes hispanas quanto anglo-americanas tradicionais, como é o conhecido caso de John Richardson, filho de mãe mexicana, impecavelmente educado no México e nos EUA. Nenhum Estado é governado por um hispano, nem mesmo o Texas ou o Novo México. O mais próximo de um hispano é, paradoxalmente, a dupla de filhos do ex-presidente George Bush: um, o governador da Flórida, é casado com uma mexicana e domina com facilidade o espanhol; o outro, governador do Texas e candidato à Presidência, defende-se razoavelmente nessa língua.
Embora possam votar mais de 14 milhões de hispanos, calcula-se que apenas uns 5 milhões escolherão entre Bush e Gore. Não é de se estranhar, portanto, que os debates entre os candidatos não tenham atraído a audiência das redes de televisão hispanas. Estas preferiram seguir com sua programação popular de baixo nível intelectual ou relacionada com assuntos públicos.
Por outro lado, este eleitorado virtual ou real está muito fracionado, não apenas geograficamente em relação aos Estados onde residem, distribuídos por todo o território da União. Não existe uma região ‘‘hispana’’, mas grandes ou pequenos enclaves dentro de uma maioria norte-americana que responde a inclinações ideológicas, de classe e, de certa maneira, distribuídas por algumas linhas geográficas e históricas. Os hispanos não apenas vivem em quase todos os lugares, mas suas origens remontam a vários países. Daí ser muito difícil elaborar um pacote eleitoral ‘‘hispano’’, ausente das campanhas e, portanto, dos debates na televisão, produzidos para a maioria.
Os candidatos evitam frontalmente tratar dos temas preferidos dos mexicanos-norte-americanos. A anistia para os residentes ilegais é um tabu para a maioria silenciosa norte-americana, que se sente invadida. Os porto-riquenhos, que só podem votar se residirem em um dos 50 estados, estão muito ocupados com o problema dos bombardeios em Vieques. A opção entre ser Estado livre associado, Estado americano ou a independência, o tema eterno, é algo apenas visto com o canto dos olhos pelos candidatos. O espinhoso assunto da mudança de status ficou novamente ofuscado. Já os cubanos, naturalmente, continuam obcecados em derrubar Castro. Mas, este assunto provoca bocejos na maioria dos norte-americanos.
A pressão social dos colombianos apenas se deixa notar, pois até agora foram menos inclinados ao ativismo político interno, já que mantêm muito mais vivos os vínculos com o país de origem, à espera de uma solução para os problemas sociopolíticos. Tendo em vista que a Colômbia entrou numa espiral de destruição nacional, os residentes nos Estados Unidos deverão encontrar uma brecha no programa hispano.
Sendo assim, não existe agenda hispana, no momento, mas se reclama e se assume sua força eleitoral. Funciona como o ditado galego sobre as bruxas: não existem, mas que há, há.
- JOAQUÍN ROY é catedrático de Relações Internacionais e pesquisador sênior do Centro Norte-Sul da Universidade de Miami (IPS)