Maria Lucia Victor Barbosa
De quando em vez teço comentários sobre o MST. Por quê? Porque, em primeiro lugar, o Movimento dos Sem Terra se reveste de conteúdo social e ideológico que afeta a sociedade como um todo, sendo por isso importante abordar os comportamentos do grupo em questão e as consequências derivadas de suas ações. Segundo, porque as constantes invasões do movimento são fato sempre noticiado com destaque na imprensa, e todo destaque merece referência. Em terceiro lugar, porque é meu objetivo transformar notícia em análise, com o intuito de lançar nem que seja uma pequena luz no que se passa na realidade. Isso faz parte de minha formação profissional e dá sentido ao ato de escrever.
Pois bem. Na quarta-feira passada, os dois comentários sobre o MST, na Folha, de Joel Samways Neto e de Marcos Menezes Prochet me chamaram a atenção. O primeiro, sempre atuante neste jornal, impressiona-me não só porque escreve com clareza e elegância, mas, sobretudo, por seu refinado senso de justiça e defesa intransigente da democracia. O segundo, causa-me admiração por sua coerência e por sua tenacidade na defesa dos direitos dos proprietários rurais. E a ambos, tão diferentes entre si por seus estilos, profissões e modos de vida, dedico meu respeito pela coragem com que abordam o mesmo assunto: as invasões do MST e o rastro de violência e arbitrariedade deixado por esse movimento.
Os dois comentaram sobre a retirada das 196 famílias da Fazenda Sandra, pela PM. Como sempre, os sem-terra haviam acusado os policiais de massacre. Disseram que foram obrigados a se deitar no chão, o que consideraram prática de tortura. Alegaram que houve um número enorme de feridos, e que seus instrumentos de trabalho, foices e facões, foram-lhes tomados pela polícia. No comentário, Joel Samways Neto aponta para o fato de que qualquer cidadão brasileiro que cometer tais desatinos (invadir, esbulhar posse etc.) ficará sujeito a devolver a propriedade esbulhada e a ser preso em flagrante por crime de desobediência. Em seguida pergunta: ‘‘Por que seria diferente com os sem-terra?’’ Por sua vez, Marcos Prochet escreve: ‘‘Agora, o MST busca em números fantasiosos tentar caracterizar a ação policial como arbitrária e violenta. Violência é o que fazem os sem-terra cada vez que invadem uma propriedade, destruindo patrimônio e roubando e matando o gado’’.
No dia seguinte a estas considerações, outro jornal estampou notícia onde se lia que Antonio Carlos Coelho, assessor para Assuntos Fundiários do governo do Paraná, listou os seguintes artefatos apreendidos na Fazenda Sandra, que em nada se assemelhavam a inocentes instrumentos de trabalho: ‘‘Bombas de cal montadas em garrafas de plástico, coquetéis molotov (bombas de gasolina em garrafas de vidro), um lança-chamas – improvisado num pulverizador de agrotóxicos – e três minas terrestres, armadas em garrafões de vinho de cinco litros recheados de pólvora, que não explodiram’’.
Acrescenta a notícia que os sem-terra montaram também barricadas e trincheiras, e que a polícia encontrou fios de arame liso sobre a pista de pouso que existe na propriedade. Coelho reconheceu que, ‘‘caso um avião pousasse ali, haveria com certeza um acidente’’. E o major José Rigoni Filho, do 8º Batalhão da PM em Paranavaí, que comandou a desocupação da fazenda, comentou: ‘‘Eles (os sem-terra) usaram realmente táticas de guerrilha para impedir a ação da polícia’’.
Finalmente, apurou-se que só três sem-terra sofreram ferimentos. Eles se machucaram com seus próprios materiais explosivos, porque as bombas de cal e gasolina, que atiraram sobre os policiais, resultaram em grandes quantidades de cacos de vidro.
Em artigo escrito em maio do ano passado, e que se baseou numa reportagem da revista ‘‘Istoɒ’ de maio de 99, comentei sobre uma organização radical de esquerda denominada Liga Operária e Camponesa (LOC), cuja origem remonta ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), e depois à sua cisão, virou o Partido Comunista Revolucionário (PCR). A LOC tem, como líder principal, Abênzio Dias, o Boné, um ex-metalúrgico que propõe a guerrilha e o terrorismo como meio de derrubar o atual governo e ascender ao poder.
Os seguidores da LOC, que se dizem adoradores da ‘‘Quarta Espada’’, (simbolismo escolhido pelos guerrilheiros peruanos para caracterizar seu líder Abimael Guzmán, sendo as demais ‘‘espadas’’ Karl Marx, Lenin e Mao Tsé-tung) vivem bem no capitalismo. Seus salários, segundo a hierarquia da organização, variam de R$ 400 a R$ 3 mil. Além do mais, a LOC recebe polpudas verbas de sindicatos e órgãos governamentais que sustentam suas ONGs. Uma delas, o Instituto de Educação do Trabalhador (IET), recebeu R$ 9,96 milhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) nos últimos três anos, através de desvios de recursos federais via governo de Minas Gerais.
Conforme um dirigente em entrevista à revista, os custos de manutenção são elevados, ‘‘mas já existem 62 associações em diversos pontos do Brasil discutindo a luta armada’’.
Coincidentemente, muitas invasões de terras e assentamentos são liderados pela LOC, que ensina: ‘‘Os homens devem sempre usar foices e enxadas. Nos momentos de conflito, as mulheres e crianças devem ocupar a linha de frente para funcionar como uma espécie de escudo’’.
Pelo visto, no episódio de Fazenda Sandra os sem-terra já aprenderam algo mais. E é irrelevante se as ‘‘lições’’ foram transmitidas pela radical LOC ou por misteriosos brasiguaios. O fato é que o MST descambou abertamente para a guerrilha. Quem quiser que acredite que eles são apenas bem-intencionados trabalhadores em busca da reforma agrária e da justiça social.

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