Francismara nasceu na madrugada do último dia 2 na Maternidade Municipal de Londrina. Ela é a quinta filha da dona de casa Marisa França, 39 anos. A mãe estava dividida entre a alegria pela chegada da filha e o desespero diante da negativa do marido, o metalúrgico Sergio França, de assinar uma autorização para que ela seja submetida a uma laqueadura. ''Ele tem medo que eu fique doente por causa da cirurgia e também acha que é errado, que Deus não concorda com isso''- explica Marisa.
O casal nunca fez planejamento familiar. '' Eu não posso tomar comprimidos, me fazem mal'' - justifica ela, reconhecendo, no entanto, que não tentou nenhum outro método contraceptivo. Além de uma filha de 20 anos, do primeiro casamento, Marisa tem agora quatro crianças pequenas em casa - o mais velho com 5 anos. A família sobrevive com o salário de Sergio, pouco mais de 500 reais por mês. A chegada do quinto filho trouxe também uma decisão inabalável para Marisa: ''Se meu marido não concordar com a laqueadura, vou colocar um DIU. Prá que vou arrumar mais filhos, meu Deus do céu?'' - desabafa a mãe.
Num outro quarto, no mesmo corredor, a costureira Ozana Cavalcanti Farias, 29 anos, segura o filho Camilo. Ela acaba de receber a confirmação de que vai poder fazer a laqueadura ainda este ano, assim que se recuperar do parto do terceiro filho. Quem cuidou de todos os papéis foi o marido dela, Claudemir Farias, que é funcionário público. O casal planejou dois filhos e usava a tabelinha: ''Quando descobri que estava grávida meu marido tomou a iniciativa e foi atrás de toda a papelada. A situação financeira está muito difícil e nós não queremos mais filhos de jeito nenhum''- garante Ozana. Depois que engravidou, ela teve que deixar o emprego e o casal vive só com o salário de Claudemir, que ganha pouco mais de 400 reais por mês.
A maioria das parturientes da Maternidade Municipal são mulheres pobres que têm muitos filhos - 71% delas não fazem planejamento familiar. São jovens - 77% têm de 20 a 35 anos, têm pouca instrução - 41% não terminaram nem o primeiro grau e não têm nenhuma fonte de renda - 68% estão desempregadas. Quase 30% sobrevivem com uma renda inferior a 2 salários mínimos. As estatísticas fazem parte de uma pesquisa do setor de serviço social da Maternidade, que implantou um programa de planejamento familiar há dois anos no hospital.
O planejamento familiar é oferecido para todas as mulheres. ''Dependendo da situação, a gente encaminha direto para laqueadura. Tem mulheres com 6, 7 filhos, que não cuidam das crianças e não tomam nenhum cuidado para não engravidar'' - conta a assistente social Patricia Benício. '' Elas não entregam os filhos para adoção mas também não ficam com as crianças. Deixam com parentes, amigos e até mesmo negligenciam as que ficam com elas'' - denuncia Livia Lopes Sola, que também trabalha no setor. O hospital faz uma média de 10 cirurgias de laqueadura por mês e também oferece DIU para as pacientes. Atualmente existem 132 mulheres com a cirurgia marcada e outras 30 esperando avaliação médica e social.
Além da laqueadura, a Constituição Federal só permite um outro tipo de cirurgia de esterilização, que é a vasectomia. Estas técnicas de contracepção só podem ser usadas em homens e mulheres maiores de 25 anos ou com pelo menos 2 filhos vivos. Os dois cônjuges precisam estar de acordo e assinar um documento aceitando a cirurgia. A mesma lei diz que o ''planejamento familiar é um direito de todo cidadão'' e que '' o Sistema Único de Saúde (SUS) é obrigado a dar assistência não só para a concepção mas também para a contracepção''.

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