A globalização também globaliza os fenômenos políticos. A revista ‘‘Le Nouvel Observateur’’, de 11 de janeiro, transcreve parte do artigo do redator-chefe de Technikart, Patrick Williams, sobre pensamento, sentimento e postura política dos filhos da geração rebelde de 1968, na França, que ergueu barricadas no Quartier Latin e ocupou a Sorbonne. São, hoje, os rapazes e moças com cerca de 30 anos de idade.
Em 1968, a juventude levantou-se em vários países contra as violências e injustiças do establishment que a sufocava, nas democracias, como os Estados Unidos – então em guerra contra o Vietnã do Norte, onde combatiam 530 mil jovens americanos – e nas ditaduras militares, como a do Brasil, na qual os estudantes enfrentavam cassetetes nas ruas e resistiam ao regime nas universidades.
Tais revoltas foram exibidas amplamente pelos meios de comunicação de massa. Nutria-as o sentimento de liberação e de liberdade, contra a ordem vigente, dos governos conservadores e das velhas gerações. No ano seguinte, 400 mil jovens entoavam canções de protesto em Woodstock. Um dos motes da época – ‘‘É proibido proibir’’ – virou música no Brasil, cujo regime era dos mais repressivos do mundo.
Relembrar esses tempos como exemplares do engajamento e idealismo da juventude libertária que os viveu, e neles até morreu, sob a imprensa amordaçada, é uma forma de homenagear essa geração, malvista agora, porém, por seus filhos e filhas, segundo relata Patrick Williams.
Os jovens de 30 anos, segundo as pesquisas, não sentem orgulho político dos pais, a quem responsabilizam, não sem motivo, pelos males atuais da França e do mundo. Quais são eles? O neoliberalismo, a economia selvagem, o desemprego, o emprego instável, os salários baixos, a falta de espaço para a criação cultural dos jovens, a solidão, o desespero, a violência, o medo, o consumismo, a desonestidade.
Os sociólogos políticos – de acordo com Chrystelle Carroy e Laurent Joffrin – espantam-se. Jamais, na história – dizem eles – o voto e a militância política valeram tão pouco para resolver os problemas dos cidadãos. É o que revelam as últimas eleições dos Estados Unidos, França, Brasil e Israel, decididas não pelos votantes, mas pelos votos em branco e ausência de eleitores.
Os jovens de 30 anos vivem mais de suas frustrações do que de suas realizações. Não rejeitam os políticos, ignoram-nos. Entendem, quase todos, que os pais não construíram uma sociedade menos injusta e poluíram aquela em que viviam, transferindo-lhes um mundo com mais problemas insolúveis.
A geração que agora governa os jovens e lhes fala nas escolas, na imprensa, em toda a parte, fez o que aí está e não sabe ou não quer desfazer os malfeitos. A rebeldia de 68 foi batida porque acreditou pouco em si mesma e ficou ‘‘reacionária’’. É o que dizem as pesquisas.
A juventude, apesar de tudo, é a solução. Dela vêm os procuradores que aqui defendem a moralidade e o patrimônio público. Virá dela a decência na política. Mas, atenção, a mudança de convicções dos pais para pior até hoje envergonha os filhos.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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