Os fardos das mochilas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de fevereiro de 1997
Walmor Maccarini 
Leio na Folha da 6ª, pela palavra de um ortopedista, que as mochilas escolares não prejudicam a coluna das crianças. Digo eu: se elas estiverem vazias! Porque em minha família há uma criança com problema de coluna, e a razão, sem sombra de dúvida, não é a mochila isoladamente mas o que os professores a obrigam a carregar dentro dela. Tão pesada é a carga que mesmo um adulto sofreria ao carregá-la.
Mas não é só este o fardo. O pior é o conteúdo daqueles pesados livros e cadernos. Se espremermos, sobrará de aproveitável muito pouco. A culpa não é só dos professores mas de toda uma metodologia imposta e que também contempla as papelarias e bugigangarias das próprias escolas.
Os fardos não são, ainda, só o conteúdo dos livros e a metodologia, mas também essas estressantes e desnecessárias cinco horas diárias de escola e a obrigatoriedade de uma criança levantar-se às 6 da manhã para entrar na aula às 7, obrigando também as pessoas da família a acordarem cedo para tirar a meninada da cama (como é difícil e como dá pena!) e preparar-lhe o café e o lanche. É uma violentação, que fere os direitos da criança, forçá-la a levantar tão cedo e obrigá-la a curtir 4/5 cansativas horas de escola, aprendendo coisas de pouca serventia para as necessidades da vida que ela irá enfrentar, quando crescida e na plenitude da idade adulta. Duas horas diárias de aulas, do primário ao curso superior, seriam suficientes, se houvesse uma seleção de matérias, melhor aproveitamento do tempo e um sistema mais prático e mais inteligente de ensinar. Porque menos de duas horas é o tempo que se gasta para um culto ou uma missa, uma conferência, uma sessão de cinema, um concerto musical, um jogo de futebol ou basquete, um encontro de negócios, uma reunião de amigos, um completo check-up médico, uma caminhada de exercício físico, uma aula de qualquer curso profissionalizante. Tudo se faz muito bem em duas horas.
As escolas deveriam funcionar das 10 ao meio-dia para a primeira turna, e assim sucessivamente. Tudo o que passa de duas horas é entediante. Não há beato que aguente ficar dentro de uma igreja mais de duas horas, por bom que seja o reverendo, mas obrigamos as crianças a que fiquem 4 a 5 ouvindo um cansado e mal pago professor ensinando coisas que as crianças não querem aprender - mesmo porque, levantando tão cedo, entram na aula com sono - e mesmo que aprender quizessem, convenhamos que muito do que se ensina nas escolas tem pouca utilidade prática para o dia-a-dia da vida.
Não tenham dúvida os mestres-sala de que o ensino do terceiro milênio será o ensino da sabedoria, com lazer (o lazer-didático, que seduzirá e fascinará o estudante), com muito menos tempo de aula e mais aproveitamento, mais coisas úteis, só aquelas de que as pessoas irão precisar. O aluno é que dirá o que quererá aprender. Isto será uma opção dele, um direito. Por que, então, não começar já essa revolução?!
O que se está ensinando às crianças não é propriamente a questão, e sim o que se está deixando de ensinar. Hoje elas estão aprendendo mais rapidamente vendo televisão e vídeos e pelo que encontram em disquetes e revistas. A realidade aqui fora caminha mais rápido que a escola, mesmo aquela que já introduziu o computador nas salas de aulas. Mas o computador, por si só, não inova nada se a cabeça do pedagogo continua a mesma. Verdade que a televisão também ensina muita coisa ruim, e fascina, mas é justamente porque adotou uma metodologia de sedução. Por que as escolas não tomam o lugar da tevê?
A criança precisa aprender a ser gente e isto a escola não ensina; precisa aprender a partilhar mas a escola a ensina a disputar, e o mundo de competição, comprovadamente, não deu certo. Junto com o beabá a criança precisa aprender na escola o que futuramente irá vivenciar no trabalho, na convivência com as pessoas, nas relações da vida afetiva. Precisa aprender na escola os caminhos para sábiamente enfrentar as situações, para discernir sobre direitos e obrigações, não especificamente os que são letra morta nos códigos e regulamentos (estes também carecendo de urgente reformulação), mas aqueles direitos e deveres que são inerentes ao cidadão pelas leis naturais, tão fáceis de aprender, se nos ensinam.
É preciso passsar à criança não só a informação, mas a sabedoria, para fazê-la mais sábia que intelectual. Valeria ensinar às crianças - que vão reger o mundo neste terceiro milênio - boas coisas como cumprimentar as pessoas e a reverenciá-las como a um pai e a um irmão; a dignificar o trabalho pagando o justo e o devido ao que trabalha e cobrando o justo e o merecido de quem servimos; ensinar práticas de higiene e saúde, e a não desperdiçar; a medir o alcance dos nossos direitos e vislumbrar a linha divisória onde começam os do outro; a não cuspir no chão e não pisotear a flor; a não mentir e não trapacear; a compartilhar harmoniosamente das coisas, para que ninguém queira nos tomar pela força o que nos pertence e nem precisemos de tanto quando isto falta a outrem; ensinar que a atenção e o carinho aos nossos semelhantes são muito mais fáceis de administrar que a ira, o mau humor e o descaso; ensinar às crianças que temos um compromisso com a vida e que não precisamos temer nada.
Ensinar tudo isto é função da escola!
Utopias? Parecem, porque nunca fomos ensinados a valorizar estas coisas.


