Consultando meus arquivos, encontrei um artigo que escrevi no passado sobre o orgulho de ser curitibano. No texto, lembrava obras e gestões que marcaram a vida da nossa cidade e transformaram Curitiba em um referencial. Voltei no tempo e, novamente, constatei o quanto é essencial sentir orgulho da cidade onde você nasceu ou que escolheu para ser sua morada.
Infelizmente, os tempos são outros e o orgulho do povo curitibano está sendo colocado em prova. Nossa cidade, que foi projetada e cresceu sob o rigor da escola do Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), está sendo obrigada a abandonar os conceitos que a tornaram referência em urbanismo social.
Nesse primeiro mês de 2002, muito já se falou sobre a nova planta genérica e a progressividade do IPTU em Curitiba. Entretanto, essa é uma questão que não envolve apenas números. Por mais que a Prefeitura Municipal de Curitiba necessite aumentar suas receitas, isso não pode ser feito à custa da exclusão urbana de muitas famílias que há anos contribuem para o crescimento da nossa cidade.
O IPTU 2002 vai excluir das áreas nobres de Curitiba as famílias de classe média que investiram na construção e consolidação de importantes pólos na cidade. Corremos o risco de nos tornarmos uma metrópole como outra qualquer, na qual a população é distribuída geograficamente pelos seus bens. Seremos separados pelo que temos e não pelo que somos.
Nasci e cresci em uma Curitiba projetada para dar oportunidades iguais para todos. Essa sempre foi a essência do nosso planejamento. Em qualquer bairro de Curitiba, podemos constatar a convivência harmoniosa entre grandes mansões e pequenas moradas. Isso porque, até este momento, o homem era a medida da cidade e o homem estava dentro de qualquer tipo de construção.
A nova planta genérica de Curitiba abandonou essa diretriz. O homem deixou de ser a medida do planejamento urbano, dando lugar aos valores de seus imóveis. Por isso, é fácil vislumbrar mudanças na heterogeneidade social que caracteriza nossos bairros e nos diferencia de outras cidades.
Senão, vejamos. O Mossunguê é um bairro antigo de Curitiba. Há pouco tempo, era um bairro distante, ocupado por moradias humildes e chácaras de famílias mais privilegiadas que buscavam a tranquilidade da região. Com especulação imobiliária, o Mossunguê foi rebatizado - Ecoville - e ganhou o status de bairro nobre. Entretanto, os moradores do passado permanecem em suas casas e estão sendo castigados por uma planta genérica projetada sobre o novo padrão imobiliário do bairro.
O mesmo acontece no Boqueirão, que de banhado tornou-se uma cidade dentro de Curitiba, com regiões valorizadas no mercado imobiliário. O Ahú, bairro um pouco mais central, também viveu uma transformação nas últimas décadas e os antigos moradores, que sempre deram o charme às ruas da cidade, estão ameaçados de serem excluídos.
Reconhecemos a importância do IPTU como fonte de recursos para a realização de importantes obras em Curitiba. Mas não podemos permitir que esse imposto desmonte o planejamento urbano e social que faz Curitiba diferente.
Quero continuar a passear no Jardim Social e ver mansões de gente importante sendo vizinhas de casas mais humildes, ocupadas por locatários. Essa convivência social harmoniosa e democrática é um dos maiores valores que Curitiba tem.
Por que abrir mão desse bem? Hoje, você pode não ser um dos excluídos. Mas, se permitirmos essa exclusão, perderemos o controle e nosso referencial de planejamento urbano. Então, será hora de mudar!
MARCOS ISFER,
Deputado Estadual pelo PPS

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