Os EUA ou as focas
Foi um mau começo. O secretário de comércio dos Estados Unidos, Robert Zoellick, uma espécie de ministro de comércio exterior norte-americano, resolveu deixar de lado a diplomacia para adotar a ironia. A menos de 15 dias da primeira reunião preparatória da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), no Equador, afirmou que o Brasil poderá escolher entre duas alternativas: aceitar o acordo ou negociar com a Antartida.
No calor da campanha eleitoral para a Presidência, a declaração conseguiu o improvável. Uniu governo e oposição no Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva disse que nem responderia ao tecnocrata norte-americano e reafirmou o que já declarou inúmeras vezes. Se eleito, vai avançar na negociação para aderir à Alca apenas se isso significar vantagens para o Brasil, especialmente no que diz respeito ao fim do protecionismo dos EUA na área agrícola.
Fernando Henrique Cardoso reprovou igualmente o tom provocativo usado pelo funcionário do governo dos EUA e afirmou que ''ou a Alca interessa a todos os países, ou não existirá''. O ministro brasileiro de Relações Exteriores encerrou a discussão: ''Os Estados Unidos defendem seus interesses, e nós defenderemos os nossos''. Simples.
A ironia do secretário norte-americano antecipa o ambiente em que deverão transcorrer as negociações para a criação da chamada área de livre comércio. É uma fórmula bem usada: os Estados Unidos dão as cartas e os latino-americanos jogam, conforme as regras deles. Se alguém ousar se recusar a participar, recebe como castigo o gelo e o isolamento.
É como se Europa, Ásia e África não existissem, em uma geografia muito particular. A Amazônia não pertence ao Brasil, Cuba é uma abstração comunista e o Iraque tem os dias contados. Fora das fronteiras norte-americanas, o mundo é uma geleira.
Ruth Meira





