Podemos localizar no processo histórico de surgimento dos EUA como país autônomo e independente, o seu ‘‘way of life’’ (jeito de ser) que o sintetiza tão explicitamente. Visualizamos constantemente no cinema os seus filmes que demonstram a saga da construção de seu império. Uma planície selvagem a ser desbravada (‘‘wilderness’’) por indômitos conquistadores que partem para a conquista do Oeste longínquo e bravio (‘‘far west’’) em caravanas, enfrentando índios, feras selvagens, desertos e intempéries climáticas.
A força destes intrépidos homens que buscam se construir pelos seus próprios esforços (‘‘self made man’’) impregna indelevelmente o seu jeito de ser. No novo território sem lei, cada um se tornava responsável pela sua própria sobrevivência; assim, portavam em seus coldres reluzentes ‘‘Smith & Wesson’’ e deles dependiam as suas vidas.
Poderíamos dizer que com essa experiência dos EUA se construiu uma profunda mentalidade baseada na ‘‘autodefesa’’ e na busca de seu sucesso individual - a democracia dos canos de revólveres. Evidentemente, existem aspectos melhores desta democracia; no entanto, no momento esta é, infelizmente, a dominante.
Os EUA são um país que se construiu pela atividade comercial autônoma, buscando desvencilhar-se desde os primórdios de sua colonização da sua metrópole britânica. Seus princípios religiosos protestantes conduziam o país a um contato individual e sem intermediários com o Criador, somado à ótica da qual se elevar religiosamente está ligado inextrincavelmente ao sucesso material, portanto, ‘‘good is business’’, bom é o mercado, ou ‘‘goods is good’’ - mercadorias são boas. Assim, a aproximação com ‘‘God’ (Deus) tornar-se-ia plena. Por isso, quem sabe, praticar o ‘‘shopping’’ (fazer compras) seja uma forma de oração, na qual os EUA tornaram-se experts no capitalismo.
Estes símbolos envolvem diretamente a mais recente tragédia dos assassinatos praticados por escolares portando armas automáticas e explosivos, colocando em debate no Congresso a lei de autorização de compra e porte de arma.
A indústria armamentista tem um multibilionário negócio de produção de ‘‘goods’’, enriquecidas pelas guerras localizadas e mundiais; essas indústrias possuem um forte lobby junto ao Congresso e argumentam, seguindo a lógica da constituição da mentalidade americana, que para se evitar semelhantes tragédias o caminho seria armar os professores; desta forma, o ataque seria prontamente rechaçado, o que evitaria uma maior quantidade de cadáveres.
Ora, tal argumentação baseia-se na prática da autodefesa, na qual os oponentes possuem igualdade de condições bélicas, tornando-se muito mais difícil a ocorrência do massacre. Quem se meter a besta leva bala! É a famosa democracia americana, igualdade de oportunidades no ramo do comércio, (‘‘business’’), levando vantagem quem sacar mais rápido! Lembrem-se dos produtos de origem brasileira que foram patenteados, ou melhor saqueados por corporações dos EUA.
Creio que se todos estivessem de mãos limpas, isto é, desarmados, por mais forte e hábil que fosse o agressor ele nunca iria conseguir matar tantos e tão facilmente, tendo em vista que em uma briga deste tipo, com certeza o mesmo iria levar muitos sopapos.
É óbvio que este discurso de igualdade de oportunidade no porte de armas de poder de fogo equivalente só é válido para os cidadãos dos EUA. Pois apertar o botão de computador a 1.500 quilômetros de distância lançando um míssil guiado a laser e assistir na TV a explosão, visualizando os corpos calcinados dos inimigos é a comprovação de uma covardia ímpar. Vejam os massacres na Iugoslávia, Kosovo e Iraque.
Afinal, por que só alguns escolhidos podem possuir a arma suprema, nuclear? Que tal todos, ou muito melhor, ninguém? Presidentes e generais nunca fariam a guerra se na frente do pelotão fossem postos eles e as suas famílias. Como quem é obrigado a ir são homens desconhecidos para os governantes, não há problema deles se tornarem ‘‘carne de canhão’’.
Que face triste da mais imponente sociedade ‘‘civilizada e desenvolvida’’! Creio que temos, como diria Nietzsche, que transmutar os nossos valores para evitarmos massacres e propiciar a liberdade e a democracia, na qual possamos escolher com liberdade e conhecimento de causa os rumos da sociedade.
- JOZIMAR PAES DE ALMEIDA é professor universitário em Londrina

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