Os escravos da Terra
Escravos são os seres humanos que vivem sem condições de desfrutar a vida com prazer, ganham uma miséria insuficiente para garantir uma sobrevivência digna, inviabilizando um crescimento intelectual e material na Terra. Certos escravos são cercados por exércitos, transformando cidades em campos de refugiados; outros estão no refúgio de fato a espera de ajuda humanitária; alguns são escravizados nas fazendas dos coronéis, que ditam as regras e comandam os destinos, impõe a pobreza sugando e garantindo a riqueza una; os miseráveis das cidades, os sem-teto, são escravos do estender a mão pedindo um trocado furado; os escravos de salários depreciados; os sem-terra escravos da ilusão do arar um chão próprio ou coletivo; os abastados, escravos de maior acumulação; os intimidados, escravos da sede de justiça para todos os tipos de escravos; os países do Terceiro Mundo, escravos dos desenvolvidos...
A maior dor é constatar a escravidão do menor, das crianças que pedem esmolas; da mãe que o aborda no supermercado implorando para que paguem o leite do filho, o doar um real é nada; a dor é saber que crianças estão parindo com quinze anos, que muitas vezes não sabem quem é o pai, na luta por sobreviver vendendo o próprio corpo; a dor do pai de família que perde o emprego e, com ele, a dignidade de toda família; a dor é saber que o mundo é constituído por pessoas de mando insensíveis, onde interesse escusos prevalecem frente a solidariedade; a dor das traições de toda espécie, do egoísmo intrínseco a uma parte de nossa constituição; a dor da impotência em estancar o avanço da doença, gerando a pressa gananciosa pela justiça de um rumo que humanize; a dor de ser tripudiado por qualquer tipo de desgraça íntima propalada através de meios ilícitos, um sofrimento de qualquer gênero; a dor de um povo faminto impedido de marchar pelo alcaide, o pretenso dono do espaço público. A dor de ver o familiar sequestrado. Somos todos escravos de nossos objetivos, nossos problemas são os maiores do mundo, pois não conseguimos enxergar o drama alheio e vislumbrar que nosso sofrer é insignificante se comparado a muitos outros.
Escravos da Terra, uni-vos, para que juntos, uns conduzindo a manada, outros confiando na certeira vontade irresistível de mudar o rumo, passemos a nos escravizar na confiança de uns para com os outros, nos deslocando para um novo tipo de escravidão recíproca; onde o trato seja fraterno, onde a dor seja minimizada, onde a liberdade real seja a dignidade de vida no gueto miserável, onde os que cercam sejam impedidos de continuar a intimidação, sem entretanto serem cercados. Apaziguar os conflitos de interesse, um ideal de transformação social, mas pautado na justiça social e moral. Rescrever nossa lei maior referendando os novos tempos. Alforria!
FERNANDO MARREY FERREIRA, filósofo e escritor





