Neste momento de crise, é importante que se reflita sobre o grau de responsabilidade que envolve o esforço de manter acesa a idéia do desenvolvimento econômico e social em um país com mais de 150 milhões de habitantes e o compromisso de atuar na linha de vanguarda no contexto evolutivo das sociedades humanas nos tempos do terceiro-milênio. Essa consciência de responsabilidade, infelizmente, não tem exemplo no comportamento do setor público, especialmente nas esferas do Executivo e Legislativo, que vêm dando prioridade às questões políticas de ordem eleitoral, quando deveriam desenvolver amplos esforços visando o restabelecimento do processo do desenvolvimento para criar uma expectativa positiva no âmbito da sociedade civil.
É danosa para os interesses do povo brasileiro a idéia de que a demagogia, o populismo e as vaidades pessoais dos governantes tenham preponderância neste momento crítico da vida brasileira. O entrevero entre o governador de Minas Gerais, ex-presidente Itamar Franco, e o presidente Fernando Henrique Cardoso, dá bem a dimensão do descompromisso de boa parte da classe política com a crise econômica e social e o sofrimento do povo brasileiro, que, lamente-se, tem no quadro dantesco da realidade do sertão do Nordeste o retrato fiel do subdesenvolvimento, uma realidade que deixou de ser exclusiva daquela parte do Brasil, porque se espalha pelo País, principalmente nas áreas metropolitanas das capitais recheadas de bolsões de miséria, verdadeiros depósitos de seres humanos vivendo nas condições mais primitivas que se possa imaginar. Esse enorme contingente populacional é formado por pessoas simples e humildes expulsas das lavouras, das indústrias, do comércio e até da economia informal; gente que, do dia para a noite, transforma seu perfil estético e social em razão do novo ambiente, que é totalmente desprovido dos benefícios das políticas sociais, principalmente as de educação e saúde, que são a base do desenvolvimento humano.
Em nada adianta se fazer comparações, mas é preciso compreender que uma economia que se situa entre as oito maiores do mundo não pode conviver com uma situação que só tem paralelo com os mais atrasados países africanos. A realidade caótica, dantesca, das comunidades interioranas nordestinas terá de servir de parâmetro para uma tomada de consciência da sociedade, visando exigir dos governantes uma atitude mais nobre no encaminhamento e desenvolvimento dos processos institucionais relacionados com essa crítica realidade, ao invés de se permitir que a demagogia, o populismo e as vaidades pessoais continuem tomando o precioso tempo da sociedade brasileira.
Sempre que se fala em evolução, civilidade, dignidade e humanismo, pouco se diz sobre a intrínseca responsabilidade da classe política na promoção desses valores, Todavia, essas questões deveriam ser a essência do comportamento dos políticos, de todos os matizes, como princípio e regra para uma atitude institucional competente e coerente com as necessidades e os anseios da população brasileira. Antes de vir a ser um importante agente no contexto da globalização, o Brasil terá de dar um grande passo no caminho da moralidade pública e institucional para que possa ostentar perante o mundo uma imagem de decência, que lhe daria a necessária credibilidade, que agora se busca visando reverter o quadro dos investimentos internacionais e aporte de recursos financiadores do desenvolvimento do País. Neste mundo tecnologicamente integrado, é inútil imaginar - como imaginam os governantes - que as imagens de desumanidade do povo esquecido e abandonado dos vários rincões brasileiros não corram mundo sobressaltando o bom senso e a boa fé das pessoas. Ao contrário, são imagens marcantes e determinantes das merecidas críticas que o Brasil recebe no exterior, seja junto aos organismos financeiros, seja nos ambientes da intelectualidade formadora de opinião.
A questão da moralidade também é insatisfeita no âmbito do comportamento social, nas relações entre os segmentos da sociedade, principalmente quando a mão saneadora e fiscalizadora do poder público não alcança os impertinentes oportunistas e aproveitadores das situações de debilidade. A liberação cambial foi o sinal de partida para o avanço dos inescrupulosos, que investem contra a cidadania fragilizada, que não tem opção em suas necessidades de abastecimento de produtos básicos e remédios para curar suas enfermidades. Há registros de elevação de preços de maneira desnecessária e muito acima dos níveis percentuais determinados pela nova realidade monetária, promovendo grande afronta às necessidades da população, principalmente os menos favorecidos, que formam a grande maioria no País.
A imagem da imoralidade também está nas estatísticas do crime: em São Paulo (metrópole), durante o Carnaval, aconteceram 233 assassinatos. Na guerra no final de 98 contra Saddan Hussein, morreram menos de 30 pessoas vitimadas por armas de grande tecnologia, como mísseis que custam US$ 1 milhão.
Considere-se que em nenhum momento da vida brasileira, a cultura social esteve em tão baixo nível quanto se verifica neste momento, às vésperas de um novo milênio, ao mesmo tempo em que se proclama uma falsa modernidade visando induzir a sociedade brasileira a acreditar em um status que não existe, porque somente o quadro do sertão do Nordeste desmente qualquer insinuação neste sentido. É preciso que se faça uma grande reflexão e que se intimide aqueles que, em nome do povo, governam para seus próprios interesses.

mockup