O Brasil está diante de um aviso da natureza que não pode ser ignorado. Meteorologistas e organismos internacionais acompanham com atenção a possibilidade de formação de um forte fenômeno El Niño no Oceano Pacífico, com elevada probabilidade de ganhar intensidade ao longo do segundo semestre de 2026 e avançar até 2027.

Embora a expressão “super El Niño” não faça parte da classificação oficial da meteorologia, ela tem sido utilizada para descrever um evento potencialmente excepcional, capaz de amplificar extremos climáticos em diversas partes do planeta.

Especialistas entrevistados pela FOLHA para a reportagem "El Niño deve garantir chuva, mas impactos ainda são incertos no campo", deste fim de semana (20 e 21), são cautelosos com o termo “super El Niño”. A professora da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Deise Ely, responsável pelo LabCLIMA (Laboratório de Pesquisas em Climatologia Geográfica) disse que por enquanto há uma especulação sobre a ocorrência, mas ainda não é possível afirmar que de fato ela vai acontecer.

Já o pesquisador da unidade soja da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), José Renato Farias, acredita que os agricultores devem tratar a possibilidade de uma versão severa do fenômeno climático como um momento de alerta e não de pânico. Ele aconselha que os produtores rurais paranaenses tenham atenção máxima com as boas práticas para diminuir os impactos e efeitos do excesso de chuvas.

O histórico brasileiro mostra que os efeitos do El Niño costumam ser sentidos no bolso, na produção de alimentos, no abastecimento de água, na geração de energia e, sobretudo, na segurança das populações mais vulneráveis. No Sul do país, o fenômeno geralmente está associado ao aumento das chuvas, elevando o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos. No Norte e em partes do Nordeste, por outro lado, as secas tendem a se intensificar, comprometendo reservatórios, lavouras e ecossistemas.

Mas talvez a principal lição seja outra. O Brasil tem convivido com uma sequência de eventos climáticos extremos que deixaram de ser exceção. As enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, as secas prolongadas na Amazônia e as ondas de calor registradas em várias regiões mostraram que a adaptação climática deixou de ser um debate para o futuro. Ela é uma necessidade do presente.

Por isso, a chegada de um possível "super El Niño" deve servir como um chamado à ação. Governos precisam reforçar sistemas de monitoramento, investir em prevenção de desastres, revisar estruturas de drenagem urbana e fortalecer planos de emergência. O setor produtivo deve antecipar estratégias de mitigação de riscos. E a população precisa estar atenta aos alertas dos órgãos oficiais.

A boa notícia é que, diferentemente de muitos desastres naturais, o El Niño não chega sem aviso. A ciência oferece meses de antecedência para planejamento e preparação. O importante é não deixar para agir apenas quando a emergência já está instalada.

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