O jogo virou rápido. Em maio, após a divulgação da notícia de que o empresário Joesley Batista, um dos donos do grupo J&F, havia fechado acordo de delação premiada com a PGR (Procuradoria Geral da República), os brasileiros vivenciaram uma incômoda sensação de que alguém de conduta questionável estava se dando muito bem. Afinal, após confessar que pagou milhões de reais em propinas para colocar suas empresas no topo do ranking das maiores do Brasil, o homem se livrou da cadeia, viajou para os Estados Unidos com a família para viver no glamour de Nova Iorque, com direito a avião particular e iate de luxo. Mas no domingo (10), o empresário se entregou à PF (Polícia Federal) de São Paulo, onde passaria a noite e seria transferido nesta segunda (11) para Brasília. O diretor da J&F, Ricardo Saud, também se entregou e seguiria para o mesmo destino do chefe, a capital federal. Os dois executivos, que revelaram em maio esquemas de corrupção que envolviam políticos de diferentes partidos e Estados, protagonizaram na semana que passou uma cena lastimável. Em uma gravação de quatro horas, que faz parte de vasto material entregue pela defesa dos executivos da J&F à PGR, Batista e Saud debocham do STF (Supremo Tribunal Federal), comprometem o ex-procurador do Ministério Público Federal Marcelo Miller e zombam do Congresso e do Poder Executivo. É o segundo áudio de Batista que causa grande polêmica. Na primeira, ele "grampeou" o presidente Temer. A partir desta segunda conversa, justificada pela defesa dos empresários como um "papo de bêbados", a situação se complicou. Tanto que a PGR analisa o cancelamento do acordo de delação premiada com os empresários e pediu a prisão temporária dos dois, solicitação acatada pelo ministro do STF Luiz Edson Fachin. O argumento da PGR é de que há indícios de má-fé por parte dos executivos ao esconderem informações importantes no acordo. A prisão temporária de Joesley Batista não é só mais um exemplo de que figuras poderosas também são presas no Brasil. Isso já vem sendo provado. O problema é o deboche que o papo embalado a uísque revelou. Há muito o que explicar. Aguenta, agora, a ressaca moral.

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